29 de setembro de 2007

ZULEIKA ZIMBÁBUE

Como a história é contada sempre de forma imparcial e do ponto de vista do narrador (como poderia ser diferente?) começarei aqui uma breve (e obviamente parcial) apresentação biográfica de uma das figuras mais emblemáticas, porém à margem, da Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, Zuleika Zimbábue.
Oficialmente ela nasceu num rincão da África Setentrional como macaca. Porém, um laboratório inglês levou para Londres, onde, num tragicômico acidente provocado por um cientista português, misturou o DNA da Zuleika com o de um ser humano. Ninguém merece, disse seu pai orangotango.
A partir daí, ela foi rejeitada e expulsa do país. Sobreviveu ganhando uns trocados atuando como a macaca Monga, em circos e feiras de automóveis, até que num fatídico dia um garotinho incauto morreu de susto ao vê-la. Perseguida por fanáticos de toda ordem, crentes que Zuleika era a versão feminina do demo, foi pega e, sem julgamento, condenada a ser queimada vivinha em praça pública, para regozijo daquela crentaiada maluca. Mas antes de virar carvão, Zuleika foi estuprada por um bom cristão, que não viu maldade nenhuma no ato, até porque, acreditava ele, a tal nem gente era e, ainda por cima, iria morrer mesmo.
Acontece que Zuleika, contrariando todas as leis da física, ressurgiu dos mortos e apareceu, sabe-se lá o motivo, aqui na Ilha dos Aterros. Pra azar seu, aquele sentimento preconceituoso da Idade Média ainda existe, e muito mais do que se imagina, nessa Ilha. Por isso, Zuleika aparece em locais escuros e enfumaçados e em ruas suspeitas do centro velho da cidade.
Muita gente pensa que Zuleika é travesti. Mas não é. É mulher mesmo e, segunda ela, e alguns testemunhos, tem clitóris avantajado. No seu caldeirão, criado pelo trauma de ter sido queimada viva, coloca fogo, como vodu, em papeizinhos com o nome de seus desafetos. Dizem que os mesmos sentem azia, má-digestão e falam asneiras em público quando isso acontece, o que faz supor que quase todo político é desafeto de Zuleika
Traumatizada, está grávida desde o incidente com o cristãozinho na Idade Média, mas não consegue parir. Comentários maldosos apontam que escondeu o filho no bairro Agronômica, mas está grávida de novo de um tal Bibico, visto regularmente nos inferninhos onde ganha seu sustento.
Outra teoria confirma que Zuleika é apenas um espírito que baixa no ator Paulo Vacilescu, vulgo Paulão, o que tem a ver com o fato de que a ex-macaca não é mesmo traveca, até porque seria o primeiro espírito transexual da desconhecida, submersa e fora dos eixos “sociais” dessa cada vez mais marginalizada vida cultural da Ilha de Nossa Senhora dos Aterros.
Por sorte, Zuleika Zimbábue tem fãs suficientes para que ela não precise sobreviver da insensatez dos fundos de apoio à cultura do Estado, pensado por quem jamais é visto em teatros, cinemas, livrarias ou qualquer coisa que se possa chamar de cultura. Para quem quiser conhecer melhor, vez ou outra ela se junta com uns rapazes sutilmente chamados de Confirmados e faz shows relâmpagos por aí, ou num tal de Blues Velvet onde entrevista um que outro artista e responde todas as dúvidas sexuais dos quem ainda têm dúvida. Ao ver qualquer nota escondida sobre as aparições de Zuleika vá vê-la, e sua vidinha de Idade Média nunca mais será a mesma.

Um comentário:

Nayana disse...

Ô se muda!

Sexta [02/11] eu estava no clube da sinuca, pulando a meio metro do chão.

Aliás, adorei achar esse blog! ;)

Abraço,
Nayana.


[se houver um cometário anterior com o mesmo texto, desconsidere este, por favor!]