9 de dezembro de 2007

Um senhor tão bonito

A idéia de tempo é humana porque existem as palavras, e entre elas a palavra tempo. Santo Agostinho disse que se lhe perguntassem sobre o tempo saberia o que era, mas não saberia dizer, porque existem coisas que a palavra não dá conta. Sentimos o sinal dele na pele, nos ossos, e no acúmulo de experiências. É engano crer que acumulamos memória. Tal tarefa, deixamos para Funes, o memorioso, personagem de Jorge Luis Borges, escritor que fez do tempo uma de suas preocupações. Funes tinha uma memória tão prodigiosa que sequer podia levantar-se da cama. Quando falavam a palavra "árvore", que para nós, desmemoriados do tempo, surge a imagem genérica, ou, quiçá de um pinheiro solitário, Funes lembrava de todas as árvores, uma por uma, e de todas as folhas que faziam parte de sua memória.

A memória, por sorte, à medida que envelhecemos, torna-se necessariamente seletiva. Somos capazes de lembrar da infância, porém esquecermos o cardápio do jantar de ontem. Pelo mesmo motivo, o cérebro guarda mais fatos agradáveis do que desagradáveis.

O tempo, esse senhor tão bonito, não cabe em nenhuma das três palavras que inventamos para tentarmos falar dele: o passado, o presente, o futuro, a não ser como taxonomia de coisas que acreditamos descrever, no máximo. Mesmo assim, tão impalpável sua "inclassificação", que, muitas vezes, mal sabemos se determinado fato aconteceu, está acontecendo ou se queremos que um dia aconteça.

Quantos sonhos confundidos com realidade. Que coisa é essa que não se alcança com a mão? Que se esvai no milésimo de segundo após a palavra dita? Que se quer e não se tem? Que se mescla e afirma não mais do que na mente de quem vive, porque o tempo definitivamente não existe para os que não conhecemos, ou que não vemos mais.

O tempo: só por ele sentimos o banzo que quase se materializa um passado quando sentimos um cheiro, ou quando olhamos uma casa que sequer conhecemos por dentro, mas parece estar na retina desde sabe-se-lá quando, porque o tempo mesmo não tem mesura real, apenas uma abstrata e ínfima desrazão, analisada de um ponto de vista único daquele que tenta de forma inútil descrevê-lo numa página de jornal.

Matar o tempo, passar o tempo, recuperar o tempo perdido. Frases de efeito retórico, nada mais, porque tempo não se deixa passar, nem se deixa morrer, nem se perde. Mesmo fazendo palavras cruzadas, não sentimos as estrelas se afastando desde a mais remota explosão que nos deixou no meio do caminho em forma de gente. Como ser assim, tão só, pergunta Vitor Ramil, sob a estrela, medida única e incontável do tempo.

O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel, disse Platão. O tempo não pára, disse Cazuza. O tempo, essa mania humana de querer saber em cinco letras o que não se pode saber. O tempo é o pouco espaço disponível entre o primeiro e o último choro. O tempo cabe menos na palavra tempo do que na palavra etecétera. O tempo nem nada leva nem nada traz.

3 comentários:

Regininha disse...

Coisa mais linda, Fábio!
AMEI!
pelo textos, eplas referências todas, lindas!, e por minhas próprias dificuldades em lidar com o sr. Tempo...
Obrigada por isso!
beijão,
Regininha

Anônimo disse...

Fábio,
em cada linha de frase o baque surdo do cristal, tuas palavras,
puro sal.

Karl

Anônimo disse...

TEMPO... Fiz um trabalho há muito TEMPO, em que o TEMPO era representado como uma personagem chinesa, que passava pelo palco usando um manto com uma cauda compriiida. A minha personagem era a MANHÃ, indiana, e elas dialogavam. Era uma adaptação de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, do Jorge Amado, que se emocionou ao assistir o espetáculo. Essa lembrança é trabalho do TEMPO, que, no candomblé é um orixá que existe, mas não existe, não se manifesta. Interessante, né? Muito lindo o texto que você escreveu.
Um abraço
Margarida