9 de fevereiro de 2008

Pequeno exercício de ficção para jornal

O amor, ela disse (e se não disse ele deve ter pensado) é uma espécie de repetição da história. Ele não entende, mas ouve. Ele sempre ouve. Desde o começo é assim. Ela pergunta, antes mesmo de ver Brigitte Bardot no filme do Godard, se suas pernas são macias e se seu rosto pode ser comparado ao da Ingrid Bergman. Passavam horas, ela perguntando, ele dizendo sim para qualquer das perguntas. Ela fala sem parar sobre as coisas que lê. Ela gosta de ler, e isto pra ele já é mais do que as pernas alisadas com creme e que o rosto nem tão Ingrid. E ela prosseguia: "você me gosta?".

Um dia ele teve dois sonhos. No primeiro viu alguém sair pela janela, no segundo, viu alguém entrar. Quem saiu chorava, quem entrava colocava a cabeça para trás extasiada. Pensou, apesar de não crer em nada disso, que era uma espécie de espírito. Depois descobriu que tanto a que saia quanto a que entrava eram a mesma mulher. As mulheres, ela dizia, muito convicta, como se falasse por todas (inclusive aquelas que amam apenas outras) não se importam quando um homem diga outra coisa que não aquilo que pensa. Elas querem que eles sejam convictos na mentira que contam. Essa convicção custava caro pra ele, porque havia outras coisas nela que faziam dele um sujeito apaixonado.

Não eram suas pernas, nem seu rosto, nem sua idade balzaquiana, nada de sua aparência. Era um jeito interno (se é que existe), de mexer a mão, de fumar o cigarro, de enviar músicas azuis, de escrever sempre em minúsculas, pra evitar o cansaço de apertar a tecla chamada "capslock", ou pra imitar os poetas concretos, sabe-se lá. Mas ele também escrevia assim, e talvez fosse esse detalhe tipográfico que fazia deles um para o outro, ainda que ela não acreditasse nisso, apenas ele.

Ela gostava de chorar, chamava couve de alface, tinha cabelo cor de milho, era mais baixa que ele, pensava em fotografia, gostava de Freud (ele não), de escrever, de pesquisar, tinha as pernas finas até o joelho, depois, até onde ele alcançava a mão, engrossava. Mas por incrível que pareça ele gostava mesmo era das inacessíveis morenas grandes da serra de onde vinha. Ele dizia que as mulheres gostam mais das relações do que dos homens, ela não concordava. Ela queria viver o futuro, ele queria apenas viver.

Mas porque ela dizia que o amor era uma repetição da história? Era um clichê tão grande, que parecia ele mesmo quando ouvia programas ruins na televisão. Sim, ele gostava de ver, ela não. Ela não apreciava sequer macarrão instantâneo, ele sim, apesar de parecer e dizer que não. Ele, enfim, começava a compreender tal metáfora, daquelas que falava sobre mangas, abraços silenciosos e de pouca respiração, e um milhão de possibilidades de ficarem juntos sem ele ter que escoltá-la nas pequenas e nas grandes viagens.

Ela só fala por metáforas, ele é direto. Ela tem um olho preto como jabuticaba e outro azul como o mar grego. Ela é uma deusa grega aos olhos dele. Ele imagina olhos distintos pra mesma pessoa porque ele é cego, como aqueles das janelas da alma, ou como certos escritores portenhos. Ela usa óculos, e eles se atrapalhavam na hora do beijo, porque as hastes se batem como espadas. Eles procuram janelas cada vez maiores. Ele está perdido, ela encontrada. Ele é um erro, ela um acerto. Ela pede que ele não a conheça tão bem, porque mulheres são como trens descarrilhados, ela disse. Ela chama ele de palhaço, e ele ri. Ela, apesar de todas as diferenças, diz que sente saudade, de um jeito meio enviesado, não querendo nunca dizer, nem assumir. Ela diz que mulheres são assim mesmo, misto de incompreensão e mistério, tal e qual os homens.

Ele é pouco, ela é muitas.

2 comentários:

anjo disse...

O teu trigésimo-oitavo leitor gostou muito! A última frase fechou com perfeição. Mais desses em outras colunas serão muito bem aceitos.

abraços,
Ítalo, Jaraguá do Sul/SC.

Debora disse...

Lindo, Fábio. Abração. Débora.