Coisas para se fazer enquanto se espera uma carta

Está certo que não existe nada mais ultrapassado do que aguardar a chegada de uma carta. Elas não são mais escritas desde o século passado, quando ainda eram esperadas não sem ansiedade e até uma certa melancolia. Por isso, escrevi esse pequeno manual para aqueles que ainda esperam cartas chegarem pelo correio.

1) Inventar o jogo das folhas secas de Fu Man Chu; 2) Recobrir o assoalho com pedras de armário seco; 3) Telefonar para o a companhia telefônica e reclamar de qualquer coisa, sendo que você sempre terá razão no que quer que seja da sua contenda; 4) Do mesmo modo, xingar o prefeito, o governador, os deputados federais e estaduais; 5) Calcular o tempo inexato que uma cuspida leva do alto da torre da Catedral até o a nova ruína do Miramar em dia de vento sul; 6) Contar quantas ruas históricas, com pavimento e tudo, foram repavimentadas para pagar à empreiteiras o dinheiro investido nas disputas eleitorais; 7) Ir para a fila do banco, qualquer deles, e fazer uma campanha com os outros incautos freqüentadores (chamados "clientes") para arrecadar fundos para que o banco (quase falido com seus altos lucros) possa contratar mais funcionários para que, enfim, a fila acabe; 8) Ir à cidade de Halberstadt, ao leste da Alemanha, tentar ouvir o eco do primeiro acorde da música Tão devagar quanto possível, de John Cage, que deverá ser executada nos próximos 639 anos; 9) Reler sua árvore genealógica desde o começo dos tempos, até chegar a Deus; 10) Ir ao teatro e, como Mário Quintana, contar as carecas na platéia; 11) Certificar-se de levar todas as respostas do questionário de perguntas afoitas do senhor Estevão, publicada na revista Certezas, de 1072, antes, portanto, da invenção da prensa de Gutemberg; 12) Lembrar a todo instante, mesmo quando executar todos estes passatempos, do que aconteceu em Boston, em 1912; 13) Desenrolar o papel higiênico pela casa e, munido de fita métrica, conferir se ele tem mesmo os 50 metros anunciado no rótulo; 14) Torcer para que tenha apenas 49 metros, pois haverá, assim, um motivo a mais para passar o tempo enquanto espera sua carta, tentando mostrar aos funcionários do Procon que você foi lesado, e que aquele metro era fundamental para terminar bem o seu dia; 15) Reler as cartas anteriores que, por serem datadas do século passado, ainda vinham pelo correio; 16) Tentar de todas as formas possíveis escrever, no céu, no papel, na parede da casa, no muro da escola, nos guardanapos, nos pés do pombo-correio, nas cascas da laranja, no celular, no orkut, por e-mail, nos sinais de fumaça, o quanto ficarás feliz quando receber, enfim, essa carta; 17) Jogar cara ou coroa até que depois de dezessete tentativas, finalmente, a moeda caia com a cara virada pra você; 18) Dizer aos meus 17 leitores, mas principalmente àquela que se diz a de número nove, que escrever sobre coisas possíveis de se fazer enquanto se espera uma carta é, também, uma das coisas.

Tal e qual Ricardo Reis, vendo o mundo passar diante da porta do quarto do hotel, com toda a paciência dele, espero uma carta. Não precisa ser registrada, nem por sedex. Uma carta simples, com um selo bem bonito, me basta.

Comentários

Anônimo disse…
Sublime tão.

Karl
anjo disse…
Vejo que o número de leitores aumentou :)

Há alguns textos (tempo) que você vem com essa escrita mais, como podemos dizer, poética (é a palavra que me vem agora à mente). Tenho gostado muito!
Sempre bom lê-lo!

abraços,
Ítalo, Jaraguá do Sul (o trigéssimo oitavo leitor)

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