15 de março de 2008

Ilha da Razão x Ilha da Magia

O epíteto "Ilha da Magia", que a maioria dos cidadãos da Ilha de Nossa Senhora dos Aterros ostenta com certo orgulho e auto-referência talvez explique tantos equívocos e atrasos nesse pedaço de terra nem tão perdido no mar.

Ao apelarmos à magia, ainda que possamos atribuir a isso uma certa conotação apenas carinhosa (o que não é o caso), deixamos de lado a razão. Outro dia perguntei a um amigo: e se ao invés de Ilha da Magia seus habitantes se auto-proclamassem moradores da Ilha da Razão? Seria diferente a relação tão desleixada com o próprio território? Haveria uma relação de seus habitantes com seus governantes e empresários um pouco mais inteligente e não tão servil a ações notadamente (auto) destruidoras?

É claro que muitos podem acreditar que se trata de uma especulação, digamos, bastante utópica e talvez tão repleta de devaneio quase metafísico quanto o próprio lema Ilha da Magia. Mas fui levado a ela porque nunca me conformei, morador faz 25 anos dessa cidade, com tamanho descaso por parte da própria população no que se refere à preservação de seu enorme e potencial (talvez único) patrimônio, que é o natural, porque o cultural já foi desprezado faz muito tempo, tão logo começaram a derrubar à vontade boa parte do centro histórico.

Franklin Cascaes, um escritor mediano, mas um pesquisador muito atento e honestíssima figura, nunca usou de magia para recuperar e relatar todos os casos de suposta assombração. Ela usou da razão o tempo todo, e tratou com respeito absoluto a crença de seus moradores, recontando os casos sempre de olho no que chamamos de cultura, porque são tão fantásticas as narrativas, ainda que no âmbito da ficção, que se perdêssemos inclusive essas histórias, o que seria da Ilha? Mas não significa que resgatar seja necessariamente acreditar. Mais um exemplo de que nem sempre fazem de uma obra aquilo que ela é. Infelizmente, muita gente que se embebeda dessa mítica bruxólica e supostamente mágica não compreende que ao fazê-lo abre espaço para espertinhos governantes e empresários usarem essa mítica a seu favor. Um povo sem razão de que forma saberá distinguir a grandeza das histórias e metáforas de seus antepassados, e no nosso caso da Ilha dos Aterros as fantasmagorias e bruxolices, do conformismo e apatia diante de tanta destruição natural e cultural?

Ao optar pela magia e não pela razão, se abre a guarda para aquele que usa das crendices que a magia proporciona para usar sua própria razão, que também é destruidora, porque não se destrói com magia, só com razão. E só é possível combater a "destruição da razão" com a "barricada da razão".

Durante séculos a idéia de que problemas só são resolvidos por crenças metafísicas só fez aumentar o poder de muitos governantes, por contar com a apatia da população, sempre crente que se nada está dando certo nessa terra, e após a morte tudo será tranqüilo no céu. Essa espécie de vingança pós-morte (porque ainda se crê que os ricos não alcançarão o reino dos céus) está intimamente ligada à idéia de que pela magia (afinal, o que é?) os problemas terrenos serão resolvidos. E basta olharmos para os lados e ver que não o são. No resumo, o epíteto só atrapalha.

Está mais do que na hora de mudarmos para Ilha da Razão, antes que a especulação imobiliária, empresários inescrupulosos e governantes de caráter duvidoso e idéias burras afundem de vez a Ilha de Nossa Senhora dos Aterros.

Um comentário:

Priscila Lopes disse...

"Ilha de Nossa Senhora dos Aterros" é genial. Graças ao Povo nos livramos daquele Saco DE Lama de Coqueiros! (assim como "Ilha da Magia" não se encaixa, "graças a Deus" também não mas graças ao trabalho).

Interessantíssimo ponto de vista. Contundente. Inteli-gente.

Abraços!