19 de julho de 2008

Isso é crônica?

Na última terça-feira, dois cronistas, Mario Prata e Ignácio de Loyola Brandão, mediados por mim (uma mediação silenciosa, segundo Prata), dentro do projeto Fundação Cultural Banco do Brasil Itinerante, debateram, entre outras questões, o papel da crônica no Brasil. A crônica não é uma obra de arte, porque depende de um tempo que talvez não seja hábil para ouvir todos os ritmos, ajeitar todas as sintaxes, por não permitir a precisão e justeza da linguagem que a arte necessita. A crônica é a face mais generosa do jornalismo, apenas isso. Ou tudo isso, dependendo do ponto de vista.

Com um pé no jornalismo ou literatura sob pressão, como afirmou Loyola, ou com um pé na literatura, como disse Prata, ficou óbvio pelos depoimentos que, apesar da defesa contrária de ambos (porque alguém tem que defender o que faz), a crônica é um objeto escrito que está longe de ser literatura. Talvez seja possível, com grande esmero e tempo (coisa de que o cronista não dispõe), criar uma pequena obra uma vez por ano. Mas é difícil engolir a idéia de que, se incluirmos o trabalho sob pressão que é escrever uma crônica, ao lado de grandes narrativas, ainda que curtas como o conto, ficará fácil perceber que o contista quase sempre terá o tempo que ele escolhe para concluir a obra. Aliás, Loyola afirmou isso, distinguindo bem seu trabalho literário do que publica nos jornais.

A crônica tem um compromisso com o leitor que as prosas literárias não têm, porque o escritor que pensa na literatura sabe que não adianta ter uma boa idéia se não houver linguagem que lhe dê conta. Tudo bem, dirão alguns leitores, o cronista também usa da linguagem, mas não terá tempo para a ourivesaria da sua prosa. Como dizia Paulo Leminski, de outro modo, a grande arte é saber transformar a vida em linguagem.

Os cronistas somos apenas escrivães ou digitadores, como disse o Ignácio, porque as histórias estão aí, mesmo que eu repita que ocupo por vezes indevidamente o lugar do cronista, porque mais opino do que conto causos prosaicos. A crônica, no sentido mais embrionário, tem a ver com os relatos dos viajantes, chamadas também de "relação", como as crônicas do Cabeça de Vaca, ou das viagens de Saint-Hilaire.

Mario Prata reclamou que faltam cronistas como nos velhos tempos, do tipo Rubem Braga, do mesmo modo que reclamou a ausência de repórteres nas redações, desde que inventaram os "press releases". Talvez os tempos sejam outros e haja tanta necessidade de se debater questões do cotidiano público, que contar das folhas que caem no outono não faça mais sentido.

Sei que tenho um modo meio enviesado de narrar as pequenas questões do cotidiano, e que deixo de ser cronista para ser articulista, principalmente quando algumas questões que tocam a vida pública me irritam profundamente. Sei que o leitor nada tem a ver com minhas irritações, porque talvez sejam mesmo apenas minhas, e fico eu crendo que elas sejam de mais pessoas.

Este talvez seja o lugar ideal para estas confissões de quem escreve, onde se pode fazer a devida distinção daquilo a que chamamos notícia, porque não há novidade fora da notícia. Este cantinho aqui do jornal é o lugar no qual o leitor pode suspirar, olhar o movimento por cima do jornal e se perguntar: mas isso é crônica? Depois sorrir e pensar que a vida sim é que talvez seja crônica.

Um comentário:

regina disse...

Nada na vida é crônica; tudo na vida é crônica: isso depende do olho do cronista. E a crônica junta jornalismo e literatura, sim, seu Fábio, de um jeito que as pessoas lêem! E vai daí a GRANDEZA do velho-Braga...
Temos que aprender com ele.
bj