5 de julho de 2008

Um cara fora de moda

Conheci um sujeito que odiava uniformes. Ele disse que se fosse para todos caminharem tal e qual camelos já nasceriam com corcovas. Mas o cara era um exagerado. Eu sempre me achei fora de moda, mas ele era diferente, era do tipo que fazia questão. Não estava fora da moda porque parou no tempo, mas porque tinha, digamos, como ele mesmo dizia, "personalidade". Enchia os beiços para dizer "personalidade". Não adiantava argumentar que, iguais a ele, outros não só tinham a tal personalidade - seja lá o que entendemos com isso - como diziam ter. Bastava isso para que ele mudasse de assunto. Ele queria ser original, tanto quanto as digitais de seus dedos. E se outros também falavam, ele não poderia mais falar. Ele era, todo mundo é, eu disse, independente do uniforme. Mas não, o cara queria era mostrar que era, e escrevia na testa suas idiossincrasias, desde que, é claro, outros também não escrevessem.

Ele não assistia a televisão, por isso não sabia nada do que se passava no mundo. Pelo menos não do mundo na televisão, que, parece, não é o mesmo que o nosso, esse prosaico, onde compramos pão e comemos em restaurante onde a comida é pesada (sei do duplo sentido, sei). Detestava computadores, não tinha correio eletrônico, orkut, messenger, e escrevia cartas numa velha Remington salva do espólio de um jornal que não existe mais.

Se algum vendedor quisesse irritar o cara, bastava usar o argumento de que o tal produto estava na moda. Ele dizia: Se moda fosse mesmo legal, ninguém riria das fotos antigas, dizendo: "Olha, como éramos ridículos com essas roupas". Andar na moda não garante o fato de não ser ridículo no presente só porque a indústria e os publicitários dizem que você é bacana andando desse jeito na rua. É, ele dizia isso, corajoso e, claro, cheio de "personalidade".

Guardava um estranho gosto por casas antigas, dessas que o prefeito da cidade ele dizia que deveriam demolir. O prefeito, ao contrário do cara, não tinha muita "personalidade", fazia apenas o que julgava que o eleitor queria, e acreditava que memória era coisa de que ninguém carece. O mercado imobiliário pensa igual o prefeito, talvez por isso o mercado imobiliário não se furtava em "investir" nas campanhas políticas. O cara até acreditava que este fosse um gosto mais compartilhado, mas há outra coisa da qual ele também gosta, mas que é apenas de sua "personalidade", ele dizia: "Não consigo juntar pessoas suficientes para impedir a demolição das casas antigas".

Assim como Wally Salomão, ele não precisava de muito dinheiro, graças a Deus. Nunca quis, ao contrário da maioria (palavra essa da qual ele se arrepiava ao ouvir), ter a casa própria. Assim como Proudhon, acreditava que toda propriedade era um roubo. Outro dia, bateu num sujeito ignorante da história brasileira, só porque era contrário a esse negócio de indígenas terem tanta terra. O cara era tão ignorante, que nem sabia que todos os índios brasileiros não chegam a ter um por cento dos cem por cento que já foram deles. E também não sabia que grupos empresariais e pessoas privadas, sozinhos, são donos de terras do tamanho do Estado do Mato Grosso, por exemplo.

Ele se indignava com isso, e sua tese era a de que quanto mais as pessoas querem se parecer iguais, mais fáceis são de manipular. Por isso, continuava ele, os governos adoram uniformes. Ele não torcia para o Avaí nem para o Figueirense, gostava de mulheres carecas, não via filmes para depois contar sua história, odiava peitos com silicone, detestava o Jornal Nacional e a revista Veja. Enfim, era um cara, convenhamos, bem fora de moda, coitado. Mas não sei bem, eu nutria uma leve admiração pela sua, digamos, "personalidade".

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