2 de agosto de 2008

Não se faz política sem cultura

  • Cultura não é só política (e me refiro à aristotélica), é muito mais. Mas é impossível fazer política ou ser político sem cultura. O modo como um cidadão vota, como ele se candidata a um cargo público (muitas vezes achando que é privado), como se discutem as regras, tudo isso é cultura. A frase mais equivocada, e talvez a mais ouvida em época de eleições, é: "não gosto de política". Mal sabe esse falante, que seu enunciado, mesmo negando, é também um ato político. Portanto, não há como negar algo que se faz, mesmo sem saber que faz. Por isso que política é cultura, ainda que cultura não seja apenas isso.

    Mesmo assim, nos poucos debates feitos até agora, quase nada se falou de cultura. Mas a estas alturas, apesar de mais uma vez poder constatar o desprezo que a classe política tem pela classe artística, não é de estranhar. Um Estado que tem uma Lei de Incentivo escancaradamente inconstitucional e perversa, porque obriga produtores a serem captadores de recursos para o próprio governo, e que ainda acha feliz a bizarrice de ter numa mesma secretaria as funções do estímulo ao esporte e ao turismo, não é mesmo de se estranhar. Também não isentarei de culpa os próprios produtores que ainda enviam projetos e captam estes recursos. Dizem que é desespero, mas avalizar ilegalidades em nome do desespero é o primeiro passo para a barbárie.

    No plano municipal, o prefeito Dário Berger se elegeu com a proposta de criar um fundo municipal de cinema e lançar os editais de apoio à cultura. Estas eram as reivindicações, e são ainda, dos artistas e produtores. Transformar a política de apoio à cultura numa questão de estado e não de governo é tão pouco que parece absurdo que isso não tenha se concretizado. Mas nem esse pouco foi feito em três anos. A Lei Municipal de Incentivo à Cultura foi modificada sem que a classe fosse ouvida, e o único edital (ao teatro) também foi publicado sem a anuência dos interessados.

    Mas políticos têm pavor da palavra cultura, mal sabendo que esse mesmo pavor é em si mesmo cultura. Por isso é que nos debates não se toca no assunto, até porque eles nem têm idéia do que fazer, porque seus partidos não têm quadros para pensar sobre, porque intelectual e poder, como disse o poeta Drummond, são coisas quase incompatíveis, porque o intelectual de verdade sempre vai achar que o que ele mesmo está fazendo talvez ainda não seja o correto, porque intelectual é cheio de dúvidas. Políticos não. Eles trazem uma certeza em seus botões que é de admirar, porém, se arrepiam com a palavra cultura. Por isso é que Florianópolis não tem uma secretaria de cultura. Por isso é que Santa Catarina tem uma pasta onde se joga no mesmo saco o esporte e o turismo. Por isso é que ainda se perpetua essa lei abominável e inconstitucional no plano estadual, e que ninguém faz nada, nem o Ministério Público, nem o Tribunal de Contas e, pasmem, nem mesmo os mais interessados nela, que são os artistas e produtores.

    Talvez tudo isso seja reflexo de centenas de anos de um comportamento clientelista, onde os artistas pediam "uma ajuda" ao governo de plantão, ao invés de reivindicarem uma política democrática e coletiva, e o governo "dava", mesmo que apenas aos mais chegados. A cidade cresceu muito nestes últimos trinta anos, mas parece que apenas fisicamente, como um garoto crescido e sem juízo. Talvez seja a hora de qualificar o debate. Propostas existem. Falta apenas o principal, a compreensão de que não se faz política sem cultura.

Um comentário:

Marcelo Venturi disse...

É o fim do Bar Cine York?

Me deprime, e aos cinéfilos de plantão, uma notícia que vi hoje na net (do DC de segunda):
que o Cine York será fechado ainda este mês, ficando em funcionamento apenas o bar. Segundo Gilberto Gerlach a concorrência com as novas redes de cinema dos shoppings fez cair ainda mais o movimento, inviabilizando sua manutenção.
Será que os políticos de São José e do Governo do Esstado são tão sem noção ao ponto de deixar isso acontecer?
E assim se esvai a história... com Cecontur, Cine São José, Cine Ritz, Cine Carlitos... uns viraram auditório, outros minimercado, outros igrejas.
A arte não pode se resumir a filmes comerciais babacas dos EUA... e deixar um espaço como este morrer é inclusive uma forma de censura à inteligência e ao bom gosto!
Para que servem os governantes afinal? Onde estão os incentivos à cultura estadual e municipal? Só nas mãos da desafinada filha do governador e de atrizes globais?

Marcelo Venturi