8 de novembro de 2008

Sou um socialista

Em quase meia década escrevendo aqui nesse cantinho, já recebi centenas de mensagens de leitores os quais lêem apenas aquilo que lhe interessa. Admito que muitas vezes falhei, por acreditar que alguns conceitos sejam de domínio de todos. Começo explicando porque, por causa de um título como este, com certeza, não faltarão leitores a me chamarem de retrógrado, porque socialismo já era, caiu com o muro de Berlim.

Meu amigo Piero Angarano usa o termo pastiche para as frases prontas. Dizer que o muro de Berlim enterrou o socialismo é um pastiche. A queda do muro acabou com várias ditaduras que se atribuíam socialistas. Mais ainda, que os capitalistas adoravam ligar o termo socialismo àquelas práticas abomináveis de gerenciar um estado torturando, prendendo, matando.

O socialismo, na sua acepção radical (de ir às raízes), é apenas um meio de gerenciar recursos públicos de forma igualitária e social. Não precisa ser ditador nem torturar ninguém pra ser socialista. É possível, sim, ser socialista e democrático ao mesmo tempo. Não dá é pra confundir as ditaduras do leste europeu ou a cubana com socialismo, ainda que em Cuba existam ações às quais, apesar da imbecilidade da censura, temos que tirar o chapéu. Esse negócio de deixar tudo na mão do mercado (afinal, quem é o mercado?) está mais provado que não deu nem nunca dará certo. A prova está aí, na cara desta crise, a qual todos os economistas dizem que só tende a piorar.

O governo norte-americano, ou seja, o cidadão que paga impostos, foi chamado a salvar o mercado. Mas o mercado não era "o cara"? Por que os anti-socialistas não se perguntam o motivo pelo qual quando a saúde pública faliu, quando a educação pública faliu, quando os investimentos públicos em infra-estrutura faliram o Estado não interveio? Porque supostamente somos uns grandes idiotas, que deixamos os governos salvarem apenas os que não precisam de salvação. Esta intervenção é, em tese, socialista. Fico admirado pelo fato de que tanta gente tenha ainda medo de socializar, dividir, enxergar no outro a si mesmo. Por este motivo, mesmo que sendo fora da modinha, admito que sou um socialista, se é que interessa a alguém.

Diário Catarinense, 8 de novembro de 2008

5 comentários:

Cesar Cavalcanti disse...

Caro Fábio,

Sou Socialista, e quem não é?

Você vem confirmar o que eu já suspeitava e além de você, o mundo também acaba de se declarar Socialista.
Continuemos, pois, apesar de tudo que foi construído para desmantelar o que não interessa ao capitalismo, hoje falido, foi feito, com tudo, estamos entrando na Nova Era globalizada e humanista, calcada nos princípios do Socialismo. Socialismo este, que nunca conseguiram destruir.
Parabéns pelo seu oportuno e atual artigo.

forte abraço,
Cesar

Anônimo disse...

E para citar você mesmo (e uma expressao popular) digo : 'tiro o chapéu' para esse texto. Além da coerência e da simplicidade da forma, revela serenidade. Tenho muito prazer em ler ou ver um espirito sereno. Porque antes de tudo ha a existência e que nao ha o que temer nesta coisa toda que é ser.
(A rima é sem querer).

Abraço!
Mariana.

Estúdio Realidade disse...

Fala, Fábio,
de vez em quando passo por aqui.
cara, me manda seu e-mail novo que perdi. O meu é rgarcialopes@gmail.com
Grande abraço
Rodrigo

Fábio Brüggemann disse...

1) valeu, césar, obrigado.
2) um beijo, mariana, qualquer dia, quando eu ganhar na loteria, vou te ver.
3) grande rodrigo, meu emeio: fabiobruggemann@gmail.com.
estás nos states ou já de volta?
abraços
f'.

Anônimo disse...

Parabéns pelo artigo!
Há muito tempo percebi que você é um autor, escritor e pensador muito arejado e articulado, bem antenado em relação aos fatos consequentes da conjuntura atual, agora você ultrapassou, de maneira clara e objetiva, a conjuntura e tocou na estrutura. Muito bem elaborado seu artigo. Parabéns.
Aproveito o espaço, se é que é permitido, para dizer com todo respeito ao senhor Cesar Cavalcanti que o Socialismo não é limitado, reduzido ou mesmo sinônimo de estatização.Pelo contrário o socialismo é contra o Estado na forma em que se apresenta atualmente. Obrigado.

José Delatorre