21 de março de 2009

No desaniversário da Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, minha vista panorâmica da janela da frente.

A medida do desejo

Não uso blocos ou cadernos de anotação, como o escritor Ignácio de Loyola Brandão, ou um gravador digital, como Mário Prata, para escrever, a qualquer hora do dia ou da noite, ideias ou sugestões para futuras crônicas. Tento confiar na memória, mas ela é mais que traidora. Sou capaz de lembrar do dia em que fugi de casa, aos sete anos de idade, à noite, atravessando ruas desconhecidas, abismado com o tamanho do céu escuro, mas não lembro da ideia que tive para escrever uma crônica.

É normal chegar em casa tendo no bolso alguns guardanapos rabiscados. Olho para os garranchos e imagino que aqueles quase ideogramas foram em algum momento uma tentativa de anotar uma sugestão de um amigo, ou um tema que na hora pareça razoável, mas que na maioria das vezes se transforma em um código difícil de compreender.

Outro dia eu consegui traduzir um destes garranchos. Estava escrito: “a medida do desejo”. Até lembro de ter conversado com sobre isso, de rirmos, de tomarmos cervejas escuras e boas, de falarmos de Montaigne e de eu ter prometido introduzi-la ao universo mais que poético e ao mesmo tempo tão simples do filósofo francês. Lembro, inclusive, de ter enviado uma frase dele, no dia seguinte, que dizia: “Quando insistem para que eu diga porque o amava, sinto que não há como expressar de outro modo senão dizendo: porque era ele e porque era eu”. Talvez tudo isso tenha começado pela recordação de que alguém, um dia, tenha visto o céu, porque Truman Capote escreveu que jamais devemos nos apaixonar por coisas selvagens. A gente cuida, alimenta, e quando ela fica forte vai embora, e ficamos nós a ver o céu, como ala ficou, como eu fiquei.

Teria sido por causa disto que anotei “a medida do desejo”? Esse fragmento talvez fosse para a coleção de outras frases ou apenas palavras sozinhas que até hoje aguardam para serem destrinchadas, tais como: “lírica de ocasião”, “um dia na gaveta”, “o gosto do cheiro”, “a vida que poderia ter sido”, ou “quem faz a nação”. E assim segue o arsenal de fragmentos a serem decifrados, ou devorados. Às vezes dá certo anotar. Acabo de escrever estas linhas por causa de uma tal medida do desejo. Mas que sei eu sobre o desejo, a não ser o fato de que, como o poeta, nunca sei ao certo onde guardá-lo.

7 comentários:

Anônimo disse...

quando a minha mãe perguntou à minha irmã porque era tão difícil largar a chupeta, ela respondeu: mãe, é que a chupeta tem o gosto do cheiro da chuva.

belo texto Fabão!
beijos
loli.

Maria Carolina disse...

adorei o post. compartilho da mesma dúvida como poetisa.

beijos Fábio

turnes disse...

pô, vai no meu:

http://blogdoveludo.blogspot.com/

Júlia Eleguida disse...

me identifiquei com o texto! eu vivo cheia de papelzinhos que eu nunca sei o que são, mas os piores são os números de telefone soltos ao léo, quem teria sido o rosto daquele número?

Fábio Brüggemann disse...

Loli, tua irmã e tu são o que o Pound chamou de "penca de gente sabida".

Maria Carol, você é poeta, não poetisa.

Turnes, incluirei o teu na minha lista de ligações perigosas.

Júlia, espero que lembres do meu rosto naquele número.

Beijo os cinco, contando com a irmã da Loli.

Priscila Lopes disse...

Excelente postagem!

Um abraço, Fábio.

Anônimo disse...

"ah, o bom e velho poder de sugestão da linguagem! ah, essa legendária capacidade das palavras para implicar mais do que a realidade pode oferecer"

o texto acima é do joseph brodski ou meu?

mas, de qualquer forma, é uma oferenda a este escritor maior: o senhor brüggemann

karl