23 de maio de 2009

Perto, bem perto

Uma pergunta que muita gente faz para quem escreve é de onde vem a inspiração. Antes de responder, sempre digo que a priori não creio em inspiração. O que já é uma resposta. Se não creio, como poderia saber de onde ela vem? A ideia da existência de uma musa que sopre no ouvido os versos já prontos ou de que o escritor é um sujeito passível de ser inspirado é muito antiga. Por conta disso, fica difícil desassociar escritor da ideia de musa. Escrever não é uma atividade comum, não exige curso superior, e a densidade escritor por metro quadrado é bem pequena.

Para saber escrever é preciso, antes de mais nada, saber ler. Isso vale para qualquer atividade humana. Ninguém decide ser ator sem nunca ter ido ao teatro. Dificilmente um sujeito opta pela arquitetura sem ter se encantado com alguma forma, e por aí vai. Ao que chamam de inspiração, nada mais é do que uma espécie de memória afetiva, que vez ou outra surpreende com alguma imagem, ou ideia. Mas ela não é estranha, estrangeira, ou venha de fora de nós. Só podemos escrever sobre aquilo que conhecemos.

Nem sei, na verdade, porque estou falando sobre isso. Talvez seja a famosa embromação, doença que acomete cronistas de vez em quando. Não por falta de assunto. Eles não faltam, basta abrir os jornais, caminhar no calçadão, ouvir uma conversa no café sem que os que falam percebam, ler um livro, enfim, conhecer alguém. Poderia falar sobre os dias lindos que têm feito, sobre o friozinho bom. Assunto nunca falta. Até mesmo a falta de assunto é um assunto.

Mas tem dias que tudo fica meio entorpecido. Dá vontade de falar sobre nada mesmo, apenas sentar no banco da praça e contar quantos passantes têm blusa amarela, quantos usam anéis, ou no que está pensando aquela senhora com sacolas na mão e passo apertado.

Vontade mesmo é de fechar os olhos e sentir o calor do sol, não dar nome às coisas, apenas querer ter nascido pelo menos vinte anos mais tarde, para que qualquer diferença não fosse sentida, não causasse confusão, e querer ficar perto, bem perto. Tão perto que nem o fio da luz do sol consiga passar por entre os corpos.

3 comentários:

Jéssica disse...

"(...)e querer ficar perto, bem perto. Tão perto que nem o fio da luz do sol consiga passar por entre os corpos."

Muito lindo, adorei!

Jéssica Halberstadt Garcia

Anônimo disse...

Os gregos usavam o vocábulo Musa pensando na Música que sopra nos tímpanos.

A palavra Música, por falar nisso, vem da palavra Musa.

Borges costumava chamar a mitologia grega de "triste mitologia".

E o Leminski vociferava lá na Terra dos Pinhais: "Não existe escrever bem. Existe é pensar bem".

Fernando Karl

Priscila Lopes disse...

Bah, que delícia esse post, Brüggemann! Poderia discorrer sobre vários temas, mas tô tão dentro da coisa que não cabe num comentário, tinha que ser sentada na praça mesmo, vendo tempo e gente passar.