20 de junho de 2009

Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, 2050

Escrevo a coluna desta semana de dentro do meu automóvel, blindado, naturalmente, porque a violência passou da conta. Por sorte, a tecnologia permite que eu me conecte com meu editor para que ele possa receber este texto ainda hoje, a tempo de fechar o caderno. Faz três dias que estou preso aqui na ponte Luiz Henrique da Silveira. Mania que a gente tem de batizar ponte com nome de ex-governador. Bons tempos em que as pontes se chamavam Ponte da Saudade ou Ponte dos Suspiros.

Apesar de recém-inaugurada, de nada adiantou essa porcaria. Quando ainda era tempo de mudar a mentalidade das pessoas, os prefeitos e governadores, para agradar os empreiteiros que bancavam suas campanhas, e por acreditar que o progresso deveria ser feito de cimento e ferro, e não de cultura, como qualquer criança hoje já sabe, encheram a cidade de prédios, ruas, avenidas, viadutos e, claro, pontes. Nunca vi gostarem tanto assim de pontes.

Não sei o que vai ser de mim. Nem dos outros motoristas que estão nas outras cinco pontes. Dá pra ver daqui apenas o caos. Tudo parado. Mas ainda assim tem imbecil buzinando. Buzinar pra quê? De que vai adiantar? Recebi uma mensagem pelo celular, de um amigo que está no Campeche. Ele disse que a fila está lá na SC-413, a moderna e já esburacada avenida, com oito pistas, que passa onde antes eram as dunas, e que liga o Pântano do Sul ao Rio Vermelho. Ninguém consegue mover um milímetro. Tem gente que não vê a família faz uns cinco dias já. Dos cinco milhões da habitantes, três estão morando dentro dos automóveis.

Eu aqui já fiz vários amigos. Só não morri de fome porque tem uns camaradas que vêm a pé, por cima dos carros mesmo, trazer comida. Criou-se uma pequena indústria de servidores de pizzas e cachorros quentes, que moram no complexo de favelas Ângela Amin, que circunda as doze cabeceiras das seis pontes. Mas não sei até quando terei dinheiro. Sei de gente que já está trocando biscoito por volantes, pneus e até os bancos traseiros dos carros. Se bem que não sei do que estou reclamando. O prefeito Dario Berger, reeleito pela décima segunda vez – enquanto o TSE ainda não consegue julgar a primeira ação do prefeito itinerante –, acaba de anunciar a construção de mais duas pontes.

Sempre fui crítico da transformação da Ilha em concreto armado. Mas vejo daqui deste mar de automóveis, prédios e viadutos o quanto o progresso é lindo, de morrer.

9 comentários:

fedrizzi disse...

Grande Fábio! Sempre com opiniões e posicionamentos corajosos e lúcidos. Te leio sempre, daqui de Porto Alegre e, em breve, do alto da montanha Elbrus, na Rússia, pra onde estou de partida. Abraços do leitor e admirador, Alfredo Fedrizzi

fedrizzi disse...
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La Vanu disse...

Décima segunda vez foi megasuperultra apocalíptico...aff

Anônimo disse...

Espero que não tenhas dons mediúnicos...
Bjs,

Angela

Anônimo disse...

No ano passado conheci uma ponte chamada: "Ponte dos mentirosos", em Sibiu, na Romênia. Diz a lenda que ela ficou conhecida assim, pois era nessa ponte onde os amantes se encontravam para jurar amor eterno.

beijos
Fernanda F.

ferpa disse...

...é guru magrão, tens razão sobre o futuro!
..e falando em pontes e vias, tá sabendo q o dário vai inaugurar mais uma via????
..sim, mais uma.. e se chamará: "VIADÁRIO"...rsrsss
abs!

ramon disse...

ai magrao, achei legal a historia do senhor das flores. aqui em lages eu acho legal um rapaz que vende amendoin ele é persistente,pode estar chovendo e ela esta lá no sinal firme e forte.abraço...

samantha disse...

Tu sabe que isso n vai demorar a acontecer? Tenho isso em mente desde que passei a estudar e a enxergar direito o mundo de hoje. Mas quem é que se preocupa com a situação? Estou adorando seu trabalho.

Bjs

Anônimo disse...

Não conheço Ramon e o senhor das flores, mas nao gosto de ninguem nos semáforos. Até mmesmo dos Semáforos. São inúteis. Mas,Lages precisaria de ter estes dirigentes diligentes e fazer algumas pontes no Carahá. O centro é uma ilha e só se pode sair de lá por tres, quatro pontes que, claro, contém o indefectível semáforo. Lugar de passagem obrigatória e filas enormes. Ali revelam-se artistas comedores de fogo, malabares, dançarinos, doentes, pedichões, panfletistas, vendedores dágua, laranja, doces, limpadores de parabrisas, flanelinhas, program..
etc. Se extinguisse as sinaleiras a bicha andava. Se construissem uma ponte em cada rua que se extingue no barranco do rio, não haveria fila. Mas e aí? como se teria a impressao de cidade grande? como se filmaria seus habitantes? Como se justificaria os equipamentos tecnologicos caríssimos. Como se produziria multas a justificar convênios obscuros?
Seus politicos são ruíns por construir pontes? Mande pra cá, serão bem vindos. Haveremos de fazer uma empresa especializada em dar nomes a elas: Ponte Velha; Ponte inacabada; a de Cima; a do Lixo; a Que Caiu; a assombrada; a do assalto;a do suborno. Claro não são os nomes oficiais, estes, ninguém conhece.