13 de junho de 2009

À moda de Bertolt Brecht

Cafés, os sem cafeína. Carnes, as mal passadas. Pães, os que eu mesmo amasso. Doces, os com pouco açúcar. Governos, os que apenas governam. Políticos, nenhum, porque, segundo o poeta negro norte-americano, e. e. cummings (assim mesmo, em caixa baixa, como ele assinava), por outras palavras, não são humanos. Juízes, os que não se vendem por R$ 2 milhões.

Cidades, as que ainda não têm meninos cheirando cola nas ruas. Bares, os quais eu posso fumar, beber, conversar em paz e encontrar meus amigos. Amigos, os que podemos ficar em silêncio sem que o silêncio nos incomode. Escolas, as que a elite babaca abandonou. Livros, os que usam letra com serifa e não se pretendem cheios de firulas, que têm margens grandes e que cheiram bem.

Regras, as que devem ser quebradas sempre. Leis, uma única, a de que ninguém tem o direito de amedrontar alguém. Trabalho, só os que dão prazer, que não têm horário fixo para cumprir e que remunerem com justiça. Cheiros, o que abrem as gavetas da memória. Mate, os mais amargos. Frios, os secos. Calor, só quando estou próximo ao mar. Mar, todos eles. Poemas, os que não têm tradução. Prosas, as mais poéticas. Filhos, os mais amigos. Fumos, os de baunilha. Paisagem, as planas e altas. Cabelos, os mais curtos. Casas, as mais amplas, ensolaradas, de janelas grandes e com varanda. Conversas, as que dão vontade de apenas ouvir. Artista, o que não faz concessão.

Esperas, as que nunca têm fim, porque alimentam como o pão que não mata a fome. Amores, os impossíveis. Cachimbos, os feitos de brezo. Remédios, os que não preciso tomar. Bebidas, uísque para sair e vinho para ficar em casa. Sucos, os do limão. Chás, os de hortelã com cidreira. Lua, a mais redonda. Rios, os limpos, em que a água corrente faz lembrar o rio de Heráclito. Árvores, a araucária. Futebol, o que jogo às segundas-feiras.

Estradas, as mais vazias. Roupas, as de algodão. Papéis, os mais rugosos. Comidas, as que eu mesmo invento. Flores, as que não temem sua memória genética e que mostram ao homem o que ele não consegue admitir: que têm de morrer pra germinar. Mulheres, as que gostam de medir minha mão na sua.

8 comentários:

Júlia Eleguida disse...

belo. se escreves assim sem inspiração, fico pensando, assim tão poético e duas frases se sobrepõe, amigos, os que podemos ficar em silêncio sem que o silêncio nos incomode e mulheres, as que gostam de medir minha mão na sua.

sinto.

apenas sinto.

abraço.

Anônimo disse...

Velhos, os que, antigamente, comiam galinha assada e, agora, só comem peixe, quer dizer, só comem sereia.

Belêuza de texto, crocodilo do Alto Nilo.

Karl

Anônimo disse...

bonito, simplesmente bonito.
sonhos, os que são impossíveis.
abraços, os que são fraternos.
Até, porque tudo é breve.
Frank

Beto Tavares disse...

saudade, a das boas coisas. medo,só do filme de terror, no do escurinho do cinema - quem sabe naquele momento, em que se mede as mãos ...

Cachorro que Late disse...

ah, os amores impossiveis...

Anônimo disse...

gostei Fabio. to contigo em muitas das tuas preferencias, tirando o uisque e alguma outra. quem disse que tu não é poeta, seu prosa.

Ze'

Silvana disse...

"conversas, as que dão vontade apenas de ouvir..." como na Livros e Livros...rs!
Abraços

Luna disse...

pais, os que são amigos