22 de agosto de 2009

Contradições do adeus

Existem vários modos de dizer adeus, além do mais simples deles que é apenas dizer, com as cinco letras: adeus. Este, porém, poucos têm coragem de encarar. Primeiro, deve haver um motivo muito grave para tal. Uma viagem que se pretende para sempre (ainda que isto não exista de fato), um romance interrompido, ou uma ida até a esquina, porque adeus também quer dizer até logo. Ou, como uma garota muito especial me disse um dia, depois que eu lhe disse adeus (contrariando o fato de que são sempre elas que dizem ): “porque sei que os fins não são mais que recomeços”.

As estatísticas do amor, as mesmas ditas por Drummond no Necrológio dos desiludidos do amor – “enquanto as amadas dançarão um samba / bravo, violento, sobre a tumba deles” – mostram que os homens nunca dizem adeus. A despedida, o bota-fora, é sempre prerrogativa feminina. Homens não querem perder, mesmo que ficar seja perder. Talvez seja uma lógica ancestral, atávica, animal. Animais dizem adeus?

A garota, sem querer, criou ao mesmo tempo um paradoxo (o de que as despedidas sempre são recomeços, e, se recomeçam é porque não têm fim) e um novo paradigma (o de que os homens também sabem dizer adeus). Mas não dizem, e quando dizem, logo desdizem. Para que dizer adeus quando não se quer partir?

E quando é preciso dar fim a uma coisa que nunca teve um começo? E quando dizer adeus não significa nada, porque nada existia para que alguém tivesse que dizer adeus? Talvez seja um problema filosófico dos mais importantes hoje, quase como separar-se sem nunca ter estado junto.

Dizer e não dizer não significa nada. Ficar ou dizer adeus, nesse caso, também. Tudo flui, nenhum dia é igual ao outro, mas por que parece ser? Não sei dizer adeus, mesmo que todos os dias pareçam ser o último. Só não sei dizer último em relação ao quê. Tanto pode ser em relação ao último grão de arroz do melhor risoto, quanto pode ser a última mensagem de socorro enviada pelo comandante de um navio que afunda muito devagar. O melhor do adeus é descobrir que nada vai, exatamente do mesmo modo que nada fica.


Diário Catarinense, 22 de agosto de 2009

4 comentários:

Nayana disse...

Grazadeus eu só li isso agora, tivesse lido um mês atrás e ainda estaria só tentando dizer adeus...

;*

cris.bach disse...

é difícil decidir dizer adeus, no caso de um relacionamento, porque as pessoas buscam algo que não acabe nunca, para não encarar essa ruptura, muitas vezes necessária, mas sofrida, doída, quando não há mais nada a fazer. ou tudo já foi feito, ou nada foi, porque nada aconteceu. terminar o que nunca começou rompe com a possibilidade haver algo e rompe com o não ser, o não concretizado.
todavia, abre-se a vida para novas possibilidades, mais saudáveis, proveitosas, plenas, inteiras, ou o que quer que seja que se busque. nesse momento já somos um outro, nos reinventando e nos superando, apesar de sermos apenas nós mesmos num ato de coragem para dizer ADEUS.

Van Schultz disse...

Negócio é o seguinte: bem lindo o texto, mas quer para de confundir a gente pô! Tchau é tchau, oi é oi e uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa bem diferente!

Eu sei, não é né, mas a gente tenta ser muito mais menos confusa...

bejo!

Loja Varal disse...

Fábio, passa lá na Varal pra participar da votação...e espia o nosso blog!
beijo