1 de agosto de 2009

Uma garota indignada

Convidado pelos escritores e amigos Salim Miguel e Flávio José Cardozo, escrevi um conto para a coletânea 13 Cascaes, cujo mote deveria ser o folclorista Franklin Cascaes. O livro, publicado pela Fundação homônima, já é um dos mais vendidos, por conta de ter sido indicado para o vestibular da UFSC. Nessa semana, participei, junto com os escritores e também amigos Adolfo Boos Jr. e Olsen Jr., de um debate na Casa da Memória com alunos de terceiro ano de uma escola privada. À certa altura, a conversa girou em torno da enorme sacanagem que estão fazendo com a Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, principalmente em questão ao seu patrimônio histórico.

Acontece que os últimos 20 anos foram desprovidos de dirigentes públicos minimamente atentos no que se refere às políticas públicas para a cultura. Deu no que deu. O aterro do Burle Marx (paisagista que neste mês completaria 100 anos) virou um garajão. Assistimos a prédios e mais prédios históricos, literalmente, serem tombados ao chão, em troca de uma arquitetura de última qualidade. Os apelos para que a cidade tenha um fundo municipal de cultura, editais democráticos, um plano diretor razoável, a nada disso os políticos dão ouvidos. Pelo contrário, o prefeito acha que progresso é fazer viaduto e o governador acredita que cultura, turismo e esporte devem estar na mesma secretaria. Desse modo, sobra confusão, até mesmo por parte de quem concorda.

Por isso, no debate, uma garota ficou decepcionadíssima e indignada porque eu disse que detestava o epíteto Ilha da Magia, atribuído à cidade. Eu disse que com magia ninguém resolve nada, mas sim com razão. Ela atribui a magia à natureza, e não a esse estado metafísico no qual as coisas pretensamente se resolvem com passes de mágica. No fundo, tanto eu quanto ela defendemos a mesma coisa. E eu gostei muito da indignação dela, que deveria se voltar contra as autoridades, porque são elas que se lixam pela preservação deste patrimônio riquíssimo. Em breve, se continuarmos com essa lengalenga e não usarmos a inteligência, viveremos numa cidade como outra qualquer, sem a magia da natureza manifestada pela garota indignada, e com toda a razão.

3 comentários:

Nayana disse...

Brilhante, como sempre.

Cachorro que Late disse...

quanto mais eu penso em política, mais burra eu fico. não entendo nada. au. ;)

Christiano Scheiner disse...

e com todo a razão! certamente os administradores não tem feito bruxaria e calculam muito bem "não-calcular" o nosso patrimônio. Houvesse uma guerra espiritual, a magia venceria, mas é da inteligência ainda o fruto de nossas maiores arquiteturas. \o/