15 de agosto de 2009

Viver para contá-la

A epígrafe do livro Viver para contar, do colombiano Gabriel García Marquez, anuncia: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. Mesmo que seja algo que preenche a existência, o presente é tão fugaz, que mal conseguimos detectar onde reside. Sabemos o que é, mas não conseguimos segurá-lo, brecá-lo no tempo. O primeiro “A” deste texto já é passado, já está escrito, já foi contado. Ele permanece apenas como a sensação de um presente, mas já era. Somos seres forjados pela memória e pela contradição.

O presente, por mais que seja esse fluir constante, avançando ao futuro, é a única coisa que resta. Pensar demais no futuro é quase como não viver. Se apegar ao passado também. Carpe diem era a senha escrita, e hoje cada vez mais urgente. Mas não existe maneira de perder tempo. Qualquer coisa que façamos, estamos vivendo. Se não do modo como gostaríamos, não é por culpa do tempo. Por que sempre queremos fazer algo que não está ao alcance imediato? Por que “perdemos tempo” tentando fazer coisas para que nos levem àquilo que queremos apenas no futuro?

Escrever, se levarmos a ideia de “perder tempo” a sério, é o ato que mais faz um sujeito perder tempo. Afinal, para escrever, é preciso deixar de viver. Seria o ato de escrever o mesmo que viver? Para escrever é preciso lembrar. Do que me lembro? O que vale a pena lembrar? Por que interessaria ao outro um ínfimo de instante do que vivi? Por que leio tanto sobre os outros? Ler é viver? Se sim, o mundo é apenas uma sensação. Dormir, talvez sonhar, dizia Hamlet. Que diferença há entre o sono e a vigília se muitas vezes o que sonho, dormindo ou acordado, é tão intenso? De uma intensidade tal. que vai quase além de um fato aparentemente vivido.

Sonhei com uma casa de dois andares, duas garagens, um carro que nunca encontrei e uma mulher que expulsava todas as outras assim que chegava. Contradizendo tudo o que sempre disse sobre viver apenas o presente, decido esperar. Não sei até agora o que contar disso, nem como contar. Se esperar também é viver, depois eu me viro para contar.

Um comentário:

Luna disse...

lindo! como tudo que tu já fizestes.. hihi!!