28 de novembro de 2009

Quanto vale uma árvore?

Num único fim de ano, como já alertou no começo da semana o meu colega de coluna, Felipe Lenhart, a Ilha de Nossa Senhora dos Aterros vai gastar mais de R$ 10 milhões para três ações que só mesmo a falta de bom senso administrativo dos governantes, estaduais e municipais, pode conceber. Por pouco mais de R$ 10 milhões nós pagaremos por uma corrida de kart, um cantor italiano e uma árvore de natal.

Para o leitor ter uma ideia, o edital de cinema, que só existe ainda porque é lei, investe pouco mais de R$ 1 milhão por ano. No entanto, emprega atores, diretores, roteiristas, cenógrafos, e resulta em pelo menos um longa-metragem por ano, três ou quatro curtas, vídeos, roteiros e projetos. Isso tudo para mostrar como vivemos, o que pensamos e quem somos. Uma corrida de kart, um cantor italiano e uma árvore valem dez vezes mais, na conta dos nossos governantes, porém, não resulta em nada.

Um projeto de estímulo à leitura, que seria muito mais revolucionário e necessário, mas que não existe, não custaria mais do que R$ 100 mil por ano. Ou seja, uma árvore vale quantas vezes mais do que um ideia revolucionária, que teria como princípio tirar o Estado de um dos piores índices de leitura do País?

Mas talvez o pior deles seja a tal árvore de natal, por todo simbolismo que representa. Políticos são notórios mentirosos. Falam em educação sem nunca terem visitado uma escola pública, falam em saúde sem nunca terem pisado numa clínica pública, porque ganham o suficiente para se tratar em clínicas privadas. Uma árvore de natal pública é o simbolismo de uma crença em algo que não existe, chamado “espírito natalino”. Parece uma analogia um tanto vulgar, mas se pensamos nisso, que outra lógica haveria para gastar tanto com um negócio tão desnecessário?

É isso o quanto nós valemos, caros leitores, dez vezes menos, por termos escolhido pessoas sem nenhuma vontade de pensar uma política pública à cultura e à educação. Dez vezes menos que uns caras andando de kart, dez vezes menos que um cantor italiano, e, enfim, dez vez menos que uma árvore.

6 comentários:

Í.ta** disse...

comentei lá no blog do felipe também. é o fim do mundo isto!

mas é.

ao menos há quem escreva com sabedoria sobre isto, caso de vcs dois.

abraço.

Anônimo disse...

é verdade M. Bruggemann e pqp!

Fernando disse...

Que cagada tudo isto! Mas não é só aí que isso acontece não. Somos vítimas de nossos colonizadores mal intencionados, desbravadores sem lei. Temos muito de civilização a aprender ainda. Muito.

Maloio disse...

putz!(dezvezesmais) - e não tendo nada para discordar (não que fosse a razão), sou obrigado a concordar contigo (ou quase); dez-vezes-mais. abraço, maloio

Júlia Eleguida disse...

ótimo texto fábio, queria tanto que fosse ficção. uma paradoxo kafkaniano, mas a realidade teima em gozar em minha cara. políticos, declarações de prates homenageando as ditaduras e toda a podridão humana. as realidades são ultrajantes demais.

Pedro lemos disse...

Com efeito, administrar o dinheiro público não significa muito mais senão eleger prioridades: o que é gasto aqui deixa de ser gasto lá.

O Governo do Estado investiu 6 milhões na reforma da Catedral de Florianópolis: há quem tome essa obra como necessária "à preservação do patrimônio cultural"; enquanto o governador priorizava o espírito catarinense, catarinenses recém-nascidos morriam por falta de UTI pré-natal, catarinenses idosos morriam por falta de leito em emergência, e por aí vai.

Sabemos quais as prioridades que regem o administrador público: votos. São na verdade "administraidores", mas a catedral reformada ficará ali até a próxima campanha, a imagem de Bocelli cantando no aterro será reprizada incansavelmente, enquanto os cadáveres terão já apodrecidos, nem a lembrança deles se fará ouvir.