17 de abril de 2010

AMORES SECRETOS

Ela disse que o encontrou em uma página de receitas, entre um punhado de arroz e um tempero indiano. Disse também que estava cansada dos outros que apenas contavam histórias, e que, talvez, naquele dia, viesse alguém diferente. E veio, não por sua culpa, mas de alguém da desorganização, só que bem depois da desapresentação de uma certa peça de teatro que ele nunca viu e sequer sabe do que se trata.

Ela disse ainda que sua lição sobre o tempo, esse senhor tão bonito, havia lhe comovido. E que só por isso, e não pela receita de arroz, resolveu chamá-lo de um jeito diferente, como nunca ousou chamar ninguém.

Sim, ele foi, chegou perto, mas não disse muita coisa, porque o segredo daquele dia em diante seria esse pequeno silêncio. Mas havia um cheiro, ela disse, um fumo doce, forte, que depois se misturou com a tinta azul que ela usou pra desenhar cores, formas, nomes. Eram dezenas de anos o segredo daquele amor que demorou tanto pra chegar pra ela, pra ele, cada qual com sua medida, cada qual com seu tempo de espera, cada qual com sua ternura que cabe apenas num instante, e que fica, ele disse, no abraço apertado, peito no peito, porque depois vira imaginação.

Ele acreditava que ela havia pedido uma fotografia, mas ele estava enganado. Ela não faria isso. Depois, ele pediu um abraço, e ela, mais que isso, lhe deu um beijo. Claro, sempre em segredo, porque tem um certo tipo de amor que não precisa ser público, que não precisa de testemunhos, que precisa apenas do segredo em si e de um beijo, vários beijos escondidos.

Os amores secretos não têm hora para começar, do mesmo modo que não têm hora para terminar, e só por isso são secretos. Dá para reconhecer um amor desse tipo quando, como disse Roland Barthes, no seu Fragmento do Discurso Amoroso, os pés dos apaixonados são vistos juntos, mesmo que eles estejam distantes. Mas por pouco tempo, porque ele me disse que um dia fará finalmente aquela receita de arroz pra ela, e acordará naquela manhã e lhe dirá “bom dia, meu amor não mais secreto”, enquanto prepara o mate e corta o pão feito na noite anterior, porque ninguém, ele me disse, precisa mais do que isso.

Publicado no Diário Catarinense, 17 de abril de 2010

14 comentários:

Mariana disse...

Lindo! Sublime! Perfeito! Bárbaro!

Lia Fausta Bonilla Colome disse...

LINDO!O QUE FAZ UMA MULHER NA VIDA DE UM HOMEM! MARAVILHA! PARECE LETRA DE MÚSICA...E FOI ENTÃO QUE O DIA AMANHECEU EM PAZ...LEMBRAS...

Nayana disse...

ai ai.

Isso sem falar nos amores secretos não-declarados...

Belíssimo texto, Sr. Brüggemann!

Luna disse...

Lindo.

Anônimo disse...

que coisa bonita, fábio.

christiana disse...

muito bonito. ah, os segredos...
meu último post tem um trecho assim:
o que se pensa
em segredo
fala mais alto
...


um beijo (público),
christiana

Luisa disse...

Ei Fábio,

A quanto tempo! Hoje matei saudade de floripa te lendo, fazia tempo. Desde a peça da Savina talvez, ou pouco tempo mais tarde.

Adorei

Beijos

cris.bach disse...

oi Fábio,
me emocionei,achei lindo, sublime...

fica uma sugestão sobre falares dos amores que se iniciam com as pessoas em cidades diferentes, ou seja "os amores distantes"? não vejo melhor pessoa para falar disso do que tu!
beijos, saudades,
Cris

Anônimo disse...

tantos amores, né, brugg?
q as palavras sejam sempre mais q segredos
[ ]s
marcinho

jonira disse...

Oh, Fabinho!!
Lindo demais!! Já que não tenho mais seus poemas que suas prosas sejam sempre poéticas!!
Saudades!!
beijão

Anônimo disse...

o amor entre as personagens é tão bem descrito, que dá até inveja deles. quem não quer viver um amor assim.

Beto

Iluvatar disse...

^^... muito bom!!!!

Anônimo disse...

É esse certo tipo de amor que eu sinto. Mesmo que se esconda ele não deixa,jamais, de existir com a mesma intensidade.
Um passarinho te ama em segredo.

Í.ta** disse...

eu gosto tanto mais desses teus personagens envolvidos até o último pelas impossibilidades de amor.

grande abraço