3 de abril de 2010

Cristianismo e ética

John Lennon disse que o que acabou com Cristo foi o cristianismo. Essa frase dá para levar a qualquer instância de coletivos seguidores, como, por exemplo, o que acabou com Marx foram os marxistas. Claro que há uma diferença abissal. Marx existiu e deixou seus escritos, que até hoje são os melhores ensaios sobre o capitalismo. E o mais inacreditável, é que os capitalistas condenam Marx sem nunca terem lido uma única linha de seu principal teórico. Do mesmo modo, a maioria dos cristãos nunca leu o Novo Testamento, porque se o tivessem lido não seriam do jeito que são.

A diferença é que existe apenas um parágrafo na história sobre a existência de um homem chamado Cristo, no livro do historiador Flavio Josefo, mas não há uma única linha sobre o fato de ele operar milagres. Também não há um único texto escrito por Jesus. Todos os textos que falam da suposta existência dele, e de seus dotes de prestidigitador, foram escritos mais de cem anos depois de sua suposta crucificação. Isso significa que, para o rigor científico que a história deve necessariamente ter, os textos não passam de resultado daquela brincadeira chamada telefone sem fio.

Mesmo assim, Cristo tendo existido ou não, nenhuma diferença faz, porque o cristianismo é muito maior do que ele, infelizmente. O filósofo Sócrates também pode ter sido uma genial invenção de Platão, porque igualmente não deixou nada escrito. Mas o ideal socrático é exemplar do ponto de vista ético, do mesmo jeito que é o ideal cristão, se não fosse o cristianismo. Aliás, muito da filosofia grega, tirando, é claro, o politeísmo, foi copiado pelos cristãos, principalmente o respeito ao próximo, coisa que muitos dos que praticam o cristianismo ignoram.

Eu não sou católico, nem pertenço a qualquer religião, mas tenho uma propensão quase masoquista a dar a outra face, a ser um vagabundo tal e qual os lírios do campo, a querer andar pelos desertos, a amar o próximo como a mim mesmo, a expulsar os vendilhões dos templos (cada vez mais), e a crer que ninguém precisa mais do que um prato de comida e um dia de sol para ser feliz. Enfim, acho que sou cristão, socrático e marxista. Dispenso apenas os milagres, a abstinência sexual e o discurso cada vez mais patético das igrejas, porque distanciados de sua própria e pretensa ética.

Publicado originalmente no Diário Catarinense, 3 de abril de 2010

7 comentários:

Christiano Scheiner disse...

uau! mais uma vez, acordo num sábado para te ler e fico muito feliz! ;)

Wma Toraya disse...

excelente! vou replicar no meu blog! feliz ética para vc amanhã e sempre! abçs :)

s disse...

Visão clara e focada. Jesus é um exemplo, uma referência e tuas palavras um alento. A existência dele pode ser facultativa, desde que o objetivo da história permaneça em todos nós, independente da crença! Enquanto uns se apegam ao 'sangue derramado', outros buscam encontrar o caminho. E é o caminho que nos leva a algum lugar!
beijo, Brüggmann

Giane Severo

Í.ta** disse...

é por aí também, acho. e teus escritos são sempre muito elucidativos.

grande abraço de xarraguá!

Fifo Lima disse...

obrigado, brüggemann.

Júlia Eleguida disse...

adorei. de um sagacidade ímpar.

beijo

Don Mattos disse...

Olá Fábio, ótimo texto, só faria uma observação. Acho que até no politeísmo o cristianismo palgiou os gregos. Parte-se, primeiramente, do filho de uma humana com uma divindade, que possui poderes acima da normalidade humana. Entre Zeus, e seu eventuais filhos semi-deuses, existiam vários sub-deuses. O mesmo vale para o cristianismo, ou para o catolicismo. Na Grécia antiga eram deuses da fertilidade, amor, guerra, tempo, orgia e afins, já os católicos-cristãos, possuem seus sub-deuses para as causas urgentes, impossíveis, dívidas, curas, casamentos e afins. Muda-se o rótulo, a embalagem, mas continua sendo plágio, variações do mesmo engodo. Parabéns pelo blogue, abraço, Mattos.