12 de junho de 2010

Torcer pelo Brasil

Começou ontem mais uma Copa do Mundo. Sim, eu torço pelo Brasil, do mesmo modo como torço pelo planeta inteiro. Torço para que não exista mais um único faminto, um único assassinado, um único doente por falta de grana, para que todo mundo possa saber ler e, mais importante, saiba compreender o que lê. Torço para que os governantes de todos os países sejam menos babacas, e para que as grandes corporações comecem a pensar que, afinal, se elas querem continuar a ser grandes precisam de pessoas saudáveis, instruídas e com grana no bolso. Mas não é o que acontece, infelizmente, apesar da minha torcida.

Não torço apenas pelo fim da miséria crônica, seja de alimento, seja de conhecimento, da maioria dos países, porque é um engano acreditar que a miséria é privilégio dos países pobres. Todos viram o tanto de miseráveis que moravam na Georgia quando o furacão Katrina passou por lá. Têm miseráveis em Paris, em Barcelona e em Nova York.

Minha torcida é universal, e minha lógica me faz torcer pelo que me dá prazer. Por ter sido um guri bem magro e fraco, nunca torci para os fortes. Até porque os fortes não gostam de pessoas inteligentes, até porque, desgraçadamente, de nada adianta palavra contra um revólver, de nada adianta argumento diante da força. Torço, portanto, pelo belo, como no poema da poetisa Safo: “Quem é belo / é belo aos olhos – e basta. / Mas quem é bom / é subitamente belo”, e pelo bom.

Dentro dessa lógica, confesso, bastante idiossincrática, não vou torcer pela seleção brasileira, porque seu técnico não privilegiou o belo e o bom, mas o forte e o feio. Vou torcer pela seleção que jogar o futebol mais bonito, ainda que seja perdedora, como já aconteceu tantas vezes, em tantos campeonatos, em tantas copas do mundo. O futebol, nesse caso, é quase igual a tudo na vida. Mas continuarei torcendo pelo Brasil, para que sua população torça para um país mais letrado, justo e alimentado, do mesmo modo como torce pela sua seleção de futebol.

Publicado também no Diário Catarinense, 12 de junho de 2010.

5 comentários:

Juan PLC Salazar disse...

Fábio,

Talvez eu seja um pouco mais otimista com relação ao poder do argumento contra a força. É um batalha difícil e longa, mas acho que a história mostra que pode ser bem sucedida, como foi na Índia (Gandhi), na Polônia (Lech Walesa) e nos EUA com o movimento dos direitos civis dos negros (Martin Luther King Jr.). Tá certo que tanto o Gandhi quanto o King morreram pela bala, mas acredito que sua metodologia de resistência não-violenta foi fundamental para o êxito desses movimentos.

Concordo com você que prefire ver o jogo bonito do que o jogo feio vencedor. Vou torcer pelo Brasil, desde que a seleção traga a alegria para dentro de campo. Acho que ainda existe essa possibilidade, portanto torço para que você veja o belo no nosso futebol e também torça pelo Brasil.

Torceremos em uníssono pelo fim do Brasil dos oprimidos, ingnorantes e marginalizados. Esse Brasil tem que mudar.

FlaM disse...

bonito!
sim, a gente não quer só comida.
(torcendo para que não exista mais um único sem pão ou circo)

La Vanu disse...

Aumentando a torcida...3 já!!!

Iluvatar disse...

Texto maravilhoso.
Embora acredite ser dever torcer por todos, e que a competição gera tantos frutos bons, quantos estragados, logo que essa torcida seja pela humanidade.

Í.ta** disse...

tô contigo, torço por um brasil, talvez não pela seleção.

abraço.