17 de julho de 2010

Proposições para um debate

1) Acho estranho a priori qualquer tipo de casamento, porque ninguém tem que dar satisfação de sua vida amorosa, nem à igreja nem ao estado. Logo, independentemente se o casal é ou não homossexual, não seria a proposta nascida de uma discussão que nunca existiu antes, que seria a ideia pública de casamento?

2) O argumento da união, pelo menos civil, entre pessoas do mesmo sexo de que o casamento universal concede direitos ao cônjuge também precisa de um debate a priori, que é o direito de herança. Para isso, existem há muito tempo os contratos, nos quais qualquer pessoa, de qualquer sexo, podem fazer qualquer tipo de acordo público sobre o destino de seus bens.

3) O direito de herança é uma das grandes pragas de uma sociedade. No resumo, premiam-se herdeiros com grandes fortunas apenas por serem filhos ou parentes. Toda herança não poderia ser pública? Incluiria ainda o direito autoral, pois, afinal, quem mal ganha com sua obra é o artista, não seus herdeiros. Aliás, uma parcela enorme de herdeiros mais atrapalha a divulgação da obra de seus ascendentes do que ajuda.

4) Pode parecer absurdo, mas uma parcela razoável e bem desinformada da população, que acredita ainda na revista Veja, critica os programas de distribuição de renda do atual governo federal. Mas não consegue enxergar que existe um grande programa de concentração de renda na mão de poucos, baseados no modelo arcaico de herança.

5) Falo da enorme fortuna que o estado paga, ou seja, que nós pagamos mensalmente, para viúvas de desembargadores, filhas de militares, governadores, ministros e toda sorte de sugadores de dinheiro público que nada fizeram para o país, a não ser suportar seus discursos medíocres. Mas quem se indigna contra essa enorme bolsa família, que nem mesmo para movimentar a economia do país serve, porque é concentradora de renda e gasta, geralmente, em outros países?

Publicado no Diário Catarinense, 17 de julho de 2010.

8 comentários:

Christiano Scheiner disse...

Fabio, gostei do Debate, e posso dizer que já há muito tempo penso sim que os herdeiros de direito autorais são os que mais atrapalham a todos em nossa rara divulgação. acho bom colocar questões como essa, do item 5 na roda também: é a primeira vez que leio alguém sobre esse assunto, e não tinha pensado sobre isso... até agora! bom final de semana! abração do chris

Telma Scherer disse...

Falou e disse, Fábio. Sempre certeiro e claro nas provocações. O que me interessa nesse debate é a produção simbólica: o conservadorismo cada vez mais assustador, reiterado por discursos moralizantes que põem por terra todas as conquistas afetivas dos anos 60 e 70. O politicamente correto anda esmagando todas as portas abertas à liberdade e essa massificação de jeitos de ser e estar propagada pela mídia chega a um pico impossível de suportar.

Í.ta** disse...

tô com o chris. ia mesmo comentar. fábio e suas cutucadas sempre oportunas! naquilo que ainda não foi mexido, seja por medo, seja por incapacidade.

abraços daqui de jaraguá, então, onde a coisa não é diferente, sabes.

turnes disse...

Caro Fábio,
Acho que posso afirmar que a maioria esmagadora dos casais gays não são multimilionários concentradores de renda.São gente comum que trabalha e vive junto, tem vontade de comprar um apê pra sair do aluguel, mas não consegue juntar as duas rendas pra conseguir o financiamento. Ou então um deles tem direito a um plano de saúde conveniado ao seu emprego, mas o outro não pode ser dependente. Por uma fatalidade um deles morre, e o apartamento que eles compraram juntos vai pra mãe que preferia ter um filho bandido a um filho viado. São exemplos clichês, mas porque são coisinhas do dia-a-dia, coisa de gente comum, que tenta levar suas vidas da forma mais justa que dá. A questão é por que a lei protege uns (héteros) e não outros (homo)? Conectar-se com a realidade cotidiana dessas pessoas é um passo importante pra analisar essas questões de forma mais terrena.
abraços.

gilvas disse...

é extremamente importante que a legislação garanta os direitos, como este do plano de saúde que o renato cita, mas o ponto é que a discussão do casamento gay aparece na mídia como se os gays estivessem buscando o direito de casarem na igreja. cara, casar na igreja é ridículo, independentemente do casal ser homo ou hetero. é de um conservadorismo pavoroso.

por outro lado, os gays devem ter o direito de serem conservadores, ora. tipo, acho muito besta esta idéia do homossexual como necessariamente um intelectual ou artista ou mesmo simplesmente refinado. testemunho de quem já recebeu assovios de servente gay de obra.

Rodrigo disse...

Creio que o direito de herança é uma das bases da sociedade. Que motivação teria um cidadão em se aprimorar, progredir profissionalmente e alcançar estabilidade financeira se soubesse que na ''passagem'' tudo ficaria para o Estado?

Imagina o caos social que geraria a cada morte dos arrimos de família. Metade do apartamento, do carro, da casa de praia, etc, ficaria com a viúva, e a outra metade com o Estado.

Se assim fosse, acredito que ninguém ficaria inerte esperando o Estado (que mais o atrapalhou do que o ajudou a conquistar) tomar tudo. Na pior das hipóteses torraria a grana toda antes de pagar o ''óbolo a Caronte''. Ou faria uma simples doação aos filhos.

Acho que essa questão está solidificada. É imexível. As distorções na divisão de renda não vão ser corrigidas pelo ''fim''.

Abraço
Rodrigo

Flávia de Mattos Motta disse...

acho que vc vai ter que marcar horario e data(s) p o debate, Fábio. Pq são muitas proposições. Vc começa num ponto e vai p outro extremo. A questão do casamento gay não é só herança vc sabe, é uma questão antes de tudo política, um passo emblemático contra a homofobia. Claro que é um faca de 2 gumes, há feministas lésbicas que discutem justamente a contradição implicada nesse embate contra forças conservadoras da sociedade que se assenta justamente sobre essa coisa tão conservadora que é o matrimônio.
A discussão sobre o direito de herança é não é apriori para a discussão do casamento homossexual!, é apenas um dos direitos adquiridos mediante o casamento. O mais importante no meu ver é a legitimidade social da coisa ("coisa" é bom!).
Os pontos 3, 4 e 5 ficam para a pauta daquele debate ou daquele café. Claro, se me deixam falar , eu e a domitila...

Flávia de Mattos Motta disse...

acho que vc vai ter que marcar horario e data(s) p o debate, Fábio. Pq são muitas proposições. Vc começa num ponto e vai p outro extremo. A questão do casamento gay não é só herança vc sabe, é uma questão antes de tudo política, um passo emblemático contra a homofobia. Claro que é um faca de 2 gumes, há feministas lésbicas que discutem justamente a contradição implicada nesse embate contra forças conservadoras da sociedade que se assenta justamente sobre essa coisa tão conservadora que é o matrimônio.
A discussão sobre o direito de herança é não é apriori para a discussão do casamento homossexual!, é apenas um dos direitos adquiridos mediante o casamento. O mais importante no meu ver é a legitimidade social da coisa ("coisa" é bom!).
Os pontos 3, 4 e 5 ficam para a pauta daquele debate ou daquele café. Claro, se me deixam falar , eu e a domitila...