3 de julho de 2010

Tanta gente, tão pouco tempo

Não lembro exatamente quando nem onde e nem quem escreveu (coisa que nem deveria dizer, vão falar por aí), li uma frase que até hoje me persegue: “tanta gente, tão pouco tempo”. E isso aconteceu quando a população era, no mínimo, metade da de hoje, numa cidade provinciana e que sequer pensava no significado futuro da expressão “explosão demográfica”.

A frase me tomava de susto, e ainda toma, porque a ideia de felicidade não parecia estanque. Quer dizer, eu nunca seria feliz totalmente. No máximo, seria feliz momentaneamente, porque era impossível abraçar o mundo, conhecer todas as cidades, amar todas as pessoas, entrar em cada edifício que eu julgasse merecedor de uma visita, ler todos os livros, compreender todas as línguas, enfim, meu “eu” cabia num espaço reduzido de desejo.

A opção menos cruel, disso me lembro, era não ser assim tão grandiloquente nos desejos, até porque, recordo de ter sido muitas vezes bem feliz apenas sentindo o sol na pele. A outra decisão, talvez apenas de aparência sensata, seria sempre (sim, e reitero, sempre) querer apenas o que poderia me pertencer, e isto incluía recusar a todo custo o que se convenciona chamar de “desejo coletivo”. Algo que está no ar, que é fabricado, que há tempo deixou de ser humano no que se refere ao desejo pelo acúmulo, porque penso que não é da natureza humana acumular, ainda que essa mesma fábrica de alucinação coletiva indique o contrário.

Se eu fosse Ludwig Wittgenstein e escrevesse um tratado lógico filosófico talvez tivesse imitado Caetano Veloso, quando cantou: “Onde queres dinheiro sou paixão”. Mas o feito, o tecido, o cozido no caldeirão insuspeitado da crença nas pátrias, nas religiões, nas associações de ajuda mútua, nas altas cortes, essa gosma não me pertence, essa meleca não quero pra mim, por mais que abarque tanta gente e tantos outros “quereres”. Ainda me basto com uma grama verde, o sol na pele, e minha mão no ventre da namorada.

Diário Catarinense, 3 de julho de 2010

4 comentários:

Ligia Moreiras Sena disse...

Que coisa linda...

Anônimo disse...

Fábio, só pra te lembrar que o sábio grego Anaxágoras (não sei porque todo grego tem que ser sábio)já escreveu numa folha de palmeira:

Chegará o dia em que cansaremos de couve, pôr-do-sol, amor.

Bela crônica bela: um tiro na testa
dos pálidos

Karl

Mariana P. disse...

lindo, sempre lindo!

Flávia de Mattos Motta disse...

belo belo belo, tenho tudo quanto quero
(quase tudo... falta uma coisinha... ou outra...)