14 de agosto de 2010

Pelo fim da produtividade

Mas palavra feia mesmo é produtividade. Sempre que um economista fala em “crescimento” eu coloco as mãos nos bolsos. Não, não é metáfora de descansar e assistir a banda passar, mas para ver se os minguados centavos que carrego cresceram mesmo.

Esse papinho aí de economia é mais metafísico que qualquer novela de reencarnação. O fato de o produto interno bruto (ainda que eu nunca tenha visto um “produtointernobrutômetro” na vida) aumentar ou reduzir é muito café pequeno para a conversa que todo político esquece na hora de prever o crescimento ou medir a tal “produtividade”, que é a distribuição dessa renda toda.

Por que essa turma não fala que crescer demais também tem suas mazelas? Aliás, quer saber, tem muito mais danos que lucros. Estamos tão acostumados com a cultura protestante, aqui no sul principalmente, e a do colono trabalhador católico, que nem vive de tanto trabalhar, baseada na moral escravocrata do trabalho, que nem nos damos contas que já está mais do que na hora de parar de crescer e distribuir de vez.

A ideia de que devemos consumir para crescer é o que está nos matando. Há tempos morreu o Homo Sapiens, e no lugar dele nasceu o Homo Shopins. Portanto, chega, não queiram me vender mais nada, parem com essa mania insana de achar que preciso de coisas.

Meu aparelho celular faz e recebe chamada e está bom assim. Meu carro tem onze anos de idade e chega em qualquer lugar que uma Ferrari também chega. Minhas roupas estão puídas mas ainda me protegem do frio. Portanto, economistas, políticos, publicitários, trabalhadores do meu Brasil varonil, eu quero apenas pegar um sol, tomar meu mate, namorar e ler um livro.

E isto está bem bom. E por favor, distribuam essa riqueza enorme que tem por aí, porque vocês não podem levar pra baixo da terra quando a indesejada das gentes chegar.

6 comentários:

jean mafra em minúsculas disse...

fabio, querido,
depois de ler teu texo, dá vontade de te dar um abraço.

Neide disse...

Jean, eu o abracei ontem!!! Sou bonita?
Pois é, Fabio,mais uma vez, você arrasa no texto e na visão, clara e certíssima de q o q importa, nesse 'desenvolvimento econômico', é o crescimento da felicidade, consequência direta do avanço intelectual e pelo simples prazer de viver um romance e/ou tomar um belo chimarrão!

gilvas disse...

curto e preciso, monsieur fabiô. esta obsessão pelo crescimento é uma invenção que nada acrescenta à experiência de vida das pessoas normais.

aproveitando para falar do contrato das provedoras de internet: se olhares as letras miúdas, vais observar que eles são obrigados a garantir apenas 10% da banda contratada durante 97% do tempo. o meu contrato, pelo menos, diz isso. caso não atendam a este requisito tão frouxo, eles apenas terão de descontar a parcela de serviço não entregue, independentemente disto ter, por exemplo, te impedido de mandar o teu tcc para o teu orientador em cima da hora. é...

Iluvatar disse...

Suas idéias vão muito de encontro comas idéias do "Zeitgeist movement" já ouviu falar?
bom se tiver interesse o site é:
http://www.thezeitgeistmovement.com

Eu recomendo também o video "where are we going from here" é uma leitura de um dos participantes do movimento, ele fala um pouco sobre a proposta de uma economia baseada em recursos, e outras coisas.

Desculpe por entrar no blog e ficar postando links e falando visite, leia, assista, más as idéias que você expõe aqui tem um tema muito próximo do discurso deles, e como simaptizo com a idéia, achei que seria interessante ter pessoas com uma visão como a sua para discutir a proposta do movimento.

Agradeço pelos textos, são excelentes, gostei especialmente de "propsições para um debate" embora todos os textos publicados estejam excelentes, como sempre.

Cácian.Castro disse...

Falou e disse!

Parabéns pelo blog, gostei!

Abraços,
Cácian Castro

Lengo D'Noronha disse...

Lembrou-me Huxley no 'Admirável Mundo Novo', onde os Alfa eram todo o tempo condicionados a produzir, consumir, não consertar nada.
E o Soma está aí em todas as redes de farmácia.
E olha que foi escrito em 1931.

Abraço.