13 de setembro de 2010

Invariavelmente as mesmas

Algumas questões filosóficas são irrespondíveis mesmo. Até já me conformei com isso. Muitas pessoas, diante do inexplicável, decidem tomar emprestado do além, do metafísico, algumas respostas. Principalmente às três perguntas essenciais, tão bem pintadas no Tahiti por Paul Gauguin: “O que somos? De onde viemos? Para onde vamos?”. Da minha parte, já que não consigo crer no intangível, nem no incomensurável, decidi deixar por isso mesmo, viver na ignorância, ser um agnóstico, o que dá no mesmo.

Mas ainda tem muitas coisas que me perturbam, como, por exemplo, balas de gengibre, formigas que comem teclados de computador, pincéis feitos de rabo de cavalo, nuvens com forma de camelo, um avião antes de decolar, navios em alto mar e um trem no deserto. Também vivo me perguntando o motivo pelo qual algumas pessoas estão na minha vida. Nem é o motivo, mas o formato. Por que sempre esbarro com aquele fulano na rua, e ele me cumprimenta? Não sei seu nome, o que ele faz, de onde veio ou pra onde vai. Mas é um rosto familiar, está ali, me chamando a atenção, e não precisamos mais do que o cumprimento.

Sempre achei um mistério o fato de andar numa rua cheia de gente e ter a impressão que aquela massa humana é a mesma de ontem, com os mesmos rostos, o mesmo tipo de passo, uma onda, quase em câmara lenta, que vai não sei pra onde. Também me intriga conhecer alguém e ter a impressão de que se parece com outra pessoa que conheço há mais tempo. Talvez o cérebro tenha um mecanismo que nos resguarde de surpresas faciais, por isso achamos que todo movimento humano, tirando a roupa que a moda impõe numa determinada época, é igual ao de ontem.

Um rosto é uma intriga. Aquela primeira ruga aparecendo no amigo, o primeiro fio de cabelo branco do fulano que conheço desde que quando tinha apenas 20 anos. O tempo e o espelho modificam os rostos, mas nunca as pessoas. Pro bem e pro mal, elas são invariavelmente as mesmas, sempre.

3 comentários:

Anônimo disse...

me incomoda pensar nas rugas, e nos fios brancos do cabelo. não sei porque, mas prefiro fingir que não os vejo. gostaria de ser sempre o mesmo, pois estes sinais do tempo, são avisos também da mente. melhor não ter espelhos.

beto

gilvas disse...

existe um mecanismo mental para reconhecimento de rostos, e ele está separado de todo o resto. pelo menos é o que dizem modernas pesquisas em cognição. isto explicaria nossa capacidade de perceber os rostos ao mesmo tempo em que nos alienamos das massas corpóreas.

por outro lado, monsieur brüggemann deveria considerar o envolvimento na direção de vídeos musicais, pois as imagens mentais evocadas foram bem intrigantes.

Nani Lobo disse...

como sempre falando por todos!! obrigado
abrs
Nani