18 de setembro de 2010

A suspensão do juízo

O que quer de mim o mundo com tantas evidências? Por que vivo aqui, nessa cidade de quase um milhão de habitantes, cercada de mar por todos os lados, administrada por uma gente tão incapaz, tão inferior, tão despreparada que dá pena mesmo é de quem a escolheu. De que sou feito? De que memória me alimento, se na maioria das vezes confundo o que sonhei com o que vivi, o que vivi com o que inventei e com o que pretendo viver? Por que algumas pessoas são tão próximas de mim, e por que dessa forma e não de outra?

Se o mistério é não haver mistério, como meu comparsa Álvaro de Campos me soprou no cérebro, me sobra olhar sem pensar, como ele mesmo fez no dia de sua mais aguda lucidez. Eu rio quando olho e não penso. Pode ser um rio de acidente geográfico, pode ser o rio da primeira pessoa do verbo rir. Eu rio quando lembro do filósofo Pirro de Elis, que não fundou o pirrismo, mas foi o primeiro sábio a pedir o silêncio, a dizer que diante de algo que não sabemos o melhor mesmo é calar. Sim, a suspensão do juízo. É isso que acontece quando olhamos um rio e ele nos suspende, como um fio, como uma baleia que não quer mais nadar, como um homem que, de um dia para o outro, decidiu fazer duas coisas no resto de sua vida: caminhar o suficiente para dar a volta no globo terrestre e amar sua mulher.

Não pense que andar a circunferência do mundo e amar sejam tarefas para qualquer um. São de igual delicadeza, ultrapassam todas as miudezas do embate tão prolixo e pobre das campanhas eleitorais. São tão superiores a qualquer juízo que não leve em conta a história recente, ou o desconhecimento da mensagem cifrada de Hermes, ou Mercúrio, como queiram.

“Eu não sei mais nada”, disse o homem, e partiu com sua amada – a qual conheceu dentro de uma caixa com uma carta dentro – para uma volta ao mundo, com o juízo suspenso igual a um fio, como um rio a quem se deve olhar com a reverência de quem não precisa dizer mais muita coisa.

4 comentários:

Fifo Lima disse...

bah, tchê, como eu gostaria de ser o autor deste texto!

Neide disse...

Huaha! Fifo, só sendo comparsa do fabio como o álvaro de campos!

Você tem toda a razão, amigo querido: diante do não saber o melhor, mesmo,é calar-se.
Fã incondicional de Guimarães Rosa,cito-o: "Posso não saber de nada, mas desconfio de muita coisa."

E,(e)ternamente, me calo e lhe beijo!

jean mafra em minúsculas disse...

fábio,
divido meu pesar invejoso com fifo lima!

beijo.

gilvas disse...

provavelmente estamos bem enganados quanto ao que é essencial em nossas vidas, brüggemann. agradeço o norte descrito em teu escrito.