4 de dezembro de 2010

Sou vagabundo, confesso

Tomo emprestado o título de hoje do pessoal da banda Dazaranha, a quem sempre admirei, desde os primórdios, quando, inclusive, escrevi uma crítica chamada Dazaranha é massa. Acontece que ainda ouço por aí a velha história da cigarra e da formiga como sendo exemplar, principalmente em Santa Catarina, estado que cultiva esse amor que nunca tive pelo trabalho acima de tudo.

O escritor Moacyr Scliar, no livro O Texto, ou: a Vida conta história de dois vizinhos de cerca. Um deles saia para trabalhar todos os dias, no mesmo horário. O outro, o escritor, ficava na varanda lendo. O primeiro, sempre que passava, perguntava; “descansando, escritor?”. E este respondia: “Não, trabalhando”. Um dia, o escritor estava mexendo no jardim e o vizinho, antes de trabalhar, disse: “Ah, trabalhando, escritor?”, e este respondeu: “Não, descansando”.

Essa mania é tanta, que o pai de um baixista profissional (ou seja, vive da música) perguntou a ele – com uma inocência perturbadora – se estava trabalhando ou “só tocando”. Esse ideário coletivo é muito mais que comum (e irritante), porque não leva em consideração a possibilidade da existência das cigarras, da arte, e da sobrevivência do artista.

É comum, por exemplo, escritores serem convidados para falar e não receberem nada por isso. Os caras pagam hospedagem, alimentação e transporte, mas o motivo principal não precisa de grana, porque, pelo jeito, escritor não precisa comer, vestir ou respirar, basta escrever. Nessa cadeia de negócios, o dono do hotel, do restaurante e do posto de gasolina recebem, porque são atividades consideradas “normais”. Mas escrever é coisa de desocupado, de quem não tem o que fazer. Sendo assim, sou vagabundo, e confessado está. E, como em qualquer outra atividade, deveriam inserir os atos de ler, pensar e escrever como parte do capitalismo selvagem. Levei anos estudando para ser vagabundo, e não existe ainda esse diploma, talvez o mais importante da cadeia produtiva. Mas minha vagabundagem tem pedigree, por favor.

Diário Catarinense, 4 de dezembro de 2010

10 comentários:

@cachorroquelate disse...

...temos um longo caminho ainda para sermos considerados trabalhadores, enquanto olhamos um céu cheio de estrelas. :) beijo!

Juan PLC Salazar disse...

Compartilho a sua irritação. Na minha profissão de professor universitário, talvez de forma mais branda, também sofro com esse preconceito. Ele vem inclusive de amigos e familiares que não conseguem entender como posso estar trabalhando de casa ou de um café, em plena sexta-feira. Recebo ainda comentários de que não preciso trabalhar muito, pois dou apenas 12 horas de aula por semana. Isso na verdade é a limitação de quem não é capaz de compreender a realidade alheia. O trabalho me acompanha o tempo inteiro. Se estou debaixo de uma figueira contemplativo com o olhar perdido entre as folhas, posso estar trabalhando. O meu trabalho, assim como o do escritor, é sobretudo pensar. Portanto trabalho muito mais do que as 40h por semana estipuladas no meu contrato com o governo federal, apesar de não passar 40h sentado numa sala com o meu nome na porta. Se quiserem me enxergar como vagabundo, então que o façam.

Daniela Damaris Neu (Porto Alegre, RS, Brasil) disse...

Simplesmente fantástico, seu texto! Quem dera pudéssemos viver de nossa arte. Música, literatura, artes plásticas, isso tudo é admirado. Mas, quem produz essas artes é visto como desocupado, sonhador, que não tem os pés no chão. Chamar alguém, especialmete um escritor, pra falar em público, é fazer-lhe um favor pra "divulgar seu nome". Isso passa do nível da revolta, é humilhante. E os anos que nos dedicamos a estudar pra ter algo realmente útil e produtivo pra compartilhar? (e esse aprendizado não para, ressalte-se) E o dinheiro que investimos nisso? É pena, de verdade, que ainda hoje escritores e artistas em geral sejam tão marginalizados.

Saudações poéticas.

Júlia Eleguida disse...

certa feita li um texto sobre teatro, no jornal ô catarina, em que era dada uma explicação para o termo vagabundo, era aquele, que para se virar nesta vida, fazia um pouco de tudo, era escritor, artista, ator, produtor, inventista, pena não me lembrar as palavras exatas, mas passei a ver o termo como uma palavra amiga.

Orivalda disse...

Materia muito boa, Brüggemann!mesmo parecendo um libelo contra o preconceito. Recomendo aos preconceituosos com o trabalhador intelectual a leitura de Domenico De Masi "O Ócio Criativo".

Carlos Henrique disse...

É isso aí Fábio! Onde já se viu não darmos valor ao que fazemos c/ tamanho zelo! Abraços!

José Geraldo disse...

Estou presenteando você com o Selo Stylish Blogger Award:

Um grande abraço

francinecanto disse...

Muito bom!!!

vinícius alves disse...

fabinho,

tem um texto muito bom do lema no livro dele anseios & ensaios crípticos (se quiseres te envio em pdf) que fala exatamente disso. é a lógica capitalista, cara. literatura não serve pra nada, te alembras? mas é sempre bom lembrar isso pros caretas de plantão.

também sou vagabundo
é isso

beijo do vini

Flávia de Mattos Motta disse...

Eu ia escrever aqui mas o Juan PLC Salazar já escreveu tudo!. Eu que não consigo enxergar glória nehuma em acordar cedo e escrevo e funciono muito melhor de madrugada, aos 50 anos ainda atendo o teleofne e escuto meu pai: "dormindo até essa hora? Que vergonha!" ou: "o que tu estás fazendo em casa uma hora dessas (de dia)?!" E ninguém considera que eu dei aula até 22:30 na universidade, cheguei em casa locona, pilhada e faminta e só sosseguei aí pelas 2, 3 hs da madrugada... Mas acho que parte do "preconceito" é inveja mesmo!