9 de março de 2011

Um carro a menos

Na sexta-feira passada, um funcionário do Banco Central, de 47 anos, atropelou um grupo de ciclistas em Porto Alegre. Vinte ficaram feridos. O grupo, autodenominado Massa Crítica, fazia um protesto justamente contra o uso indiscriminado do automóvel em detrimento de meios de transportes coletivos e não poluentes, como a bicicleta. Irritado, porque não lhe davam passagem, o funcionário, não teve outra “alternativa” (segundo ele mesmo) a não ser atropelar os ciclistas. Quem assistiu ao vídeo (disponível aqui) – ainda que não devemos condenar alguém antes da justiça – mostra o quanto foi doloso, e não culposo,  o atropelamento. O motorista poderia chamar a polícia e exigir o seu direito de ir e vir. Claro que um policial de bom senso nada poderia fazer quanto a isso, porque os ciclistas não estavam obstruindo a via, mas sim usando-a de um outro modo, que não com o automóvel, exercendo igualmente seus direitos.

O motorista alegou ainda que foi em legítima defesa, porque os ciclistas o teriam ameaçado. Do mesmo modo, como qualquer cidadão consciente de seu direito, poderia ter dado queixa da agressão. Mas o que acontece no Brasil, de forma geral, é a descrença dos cidadãos no Estado de Direito. Um Estado omisso nesta, e em quase todas as suas obrigações, como saúde, educação, saneamento, infraestrutura e cultura, principalmente cultura, leva um sujeito como esse a acreditar que pode fazer justiça com as próprias mãos. E tudo leva a crer, porque os precedentes são inúmeros, que não haverá nenhum tipo de punição legal para ele.

E é essa impunidade que gera descrença nas instituições às quais pagamos para que nos defendam, seja para andar de bicicleta, seja para usufruir do direito de ir e vir. Ah, sim, o mais emblemático nessa história de horror urbano é que o grupo de ciclistas tinha como palavra de ordem a frase “um carro a menos”.

3 comentários:

Juan PLC Salazar disse...

Já imaginou metade da Avenida Beira Mar dedicada exclusivamente ao uso da bicicleta? Milhares de pessoas usando a bicicleta como meio de transporte para chegar ao trabalho, onde tudo que se ouve são as conversas e o murmurar das correntes? Do TICEN à UFSC em 40 min ou menos, pedalada tranquila. Quando tempo leva isso de ônibus hoje? Ou de carro? Para mim, esse é o futuro e não o passado. A bicicleta é um das formas mais eficientes de transporte já inventadas, e num futuro onde combustíveis fósseis serão proibitivamente caros, olhe para suas pernas, porque elas é que vão te levar do ponto A ao B, quer você queira ou não. Por que não facilitar a vida e andar de bicicleta? É saudável, é prazeroso e quem anda de bicicleta chega ao trabalho feliz. Experimente!

Ao meu modo de ver, o que as ruas precisam são cada vez mais ciclistas, não vias exclusivas. Somente quando o motorista perceber que os ciclistas também são donos das ruas, é que o seu comportamento vai mudar. Gostaria de saber se o filho daquele criminoso algum dia já andou de bicicleta. Fico imaginando que tipo de pensamento vai passar pela cabeça daquele jovem quando ele montar numa bicicleta novamente.

gilvas disse...

sou ciclista, mas, apesar disso, o que mais me chamou a atenção foi a atitude de tomar a justiça pelas próprias mãos, exemplificando esta descrença no sistema.

btw, vi vossa senhoria na fila para o o mexicano ontem, na lagoa, pouco antes de, aparentemente, desistir.

Roberto Scardua disse...

Muito bom!