8 de maio de 2011

  • A justiça no lixo

    Para o historiador Eric Hobsbawn, o século 20 começou com a Primeira Guerra, em 1914, e terminou após a queda do Muro de Berlim e os posteriores conflitos nos Bálcãs, no início dos anos de 1990. Essa reconfiguração geopolítica, causada pelo fim da Guerra Fria, teve o mesmo motivo de toda a história do belicismo humano, que, em última instância, tem a ver com a gana dos países ricos em querer expandir seus negócios para além de suas fronteiras, numa espécie de neocolonialismo.

    Mas o século começou mesmo com Paul Gauguin, quando desviou seus olhos da Europa para o Taiti, em 1898, e perguntou – com cores ainda não vistas – quem éramos, de onde vínhamos e para onde iríamos. Do mesmo modo, também não terminou com os conflitos nos Bálcãs, mas no dia em que alguns muçulmanos (mas não por isso), supostamente comandados por Osama bin Laden, filho de um milionário saudita e parceiro dos norte-americanos no combate ao comunismo russo no Afeganistão, derrubaram um dos símbolos do capitalismo: as Torres Gêmeas do World Trade Center, em 2001.

    Depois de 10 anos escondido, Bin Laden foi sumariamente assassinado, contrariando todas as convenções e tratados de guerra já assinados. Pressupõe-se, no Estado de direito, que um cidadão só pode ser considerado culpado depois de um julgamento justo. Parece redundante a expressão, mas a história está cheia de julgamentos injustos. Mas fique claro que essa defesa do direito não significa a defesa dos atos de Bin Laden.

    O que me incomoda até os ossos é a comemoração da morte, qualquer uma, de qualquer pessoa, seja ela considerada demônio ou santa, porque a história está cheia de bandidos heróis e heróis bandidos, justiçados ou injustiçados posteriormente. É melancólico e ao mesmo tempo assustador perceber que quase ninguém se dá conta que quando alguém comemora a morte sumária de um cidadão por parte de um Estado é a mesma coisa que comemorar a concessão de sua própria morte.

    Bin Laden não estava armado, e, de acordo com uma de suas filhas, foi capturado vivo e executado na frente da família. Se aprovarmos isto, estaremos dando o direito de o governo norte-americano entrar em qualquer país, invadir qualquer casa e matar qualquer cidadão. Isso é assassinato, e Barack Obama, o mandante, torna-se, já que confesso, um criminoso que deve ser também julgado pelo seu crime. Além do mais, ao dizer que havia feito justiça, jogou a ideia de justiça na lata de lixo da história, porque a fez quase com as próprias mãos, e nem mesmo as lavou.

    Ficou óbvio também que a ordem de Obama era para matar, porque o julgamento de Osama bin Laden daria a chance do próprio se defender. Não que houvesse perdão. Ele é confesso nos caso do 11 de Setembro, e é bem provável que, diante de um júri, confirmaria seu mea culpa. Porém, suas palavras de defesa e seus ataques (desta vez verbais) ao imperialismo cruel do Estado norte-americano seriam como uma nova Bíblia para uma parcela do mundo islâmico. E é por isso que Barack Obama preferiu seu quase homônimo morto.
  • Além do mais...

  • É BOM LEMBRAR

    O cineasta Michel Moore – que construiu a melhor tese sobre a origem da violência norte-americana, no filme Tiros em Columbine (foto), atribuindo-a ao medo durante a colonização da América – foi certeiro e mordaz em sua declaração sobre a morte de Osama bin Laden: “Depois de 10 anos, duas guerras, 919.967 mortes e 1,188 trilhão de dólares, conseguimos matar uma pessoa”.

    O Carlyle Group, no qual a família de Osama bin Laden (foto) detinha ações até pouco depois de 11 de setembro de 2001, com a família Bush, é uma companhia de investidores privados que fatura aproximadamente US$ 13 bilhões ao ano. Ela atua nos setores de armamentos, telecomunicações e laboratórios farmacêuticos. Três dias depois dos atentados ao World Trade Center, após retirar todas as suas ações do grupo, a família Bin Laden foi a única a deixar o solo norte-americano, com visto de saída do próprio governo Bush.
Diário Catarinense, 7 de maio de 2011

Um comentário:

Anônimo disse...

penso igual a você. comemorar a morte, qualquer tipo de morte, é andar na contra-mão da natureza. qualquer pessoa tem direito a julgamento justo e digno. Fica a pergunta que não quer calar, quem será a próxima vítima?

Beto Tavares.