• CULTURA 100%

    Apenas para lembrar, já que é comum em Santa Catarina o desprezo pela história: faz mais de uma década que artistas e produtores culturais do Estado redigem documentos propondo uma política pública democrática para a cultura. Mas como é de hábito, os políticos, de modo geral, fazem ouvidos moucos para a palavra cultura. O motivo, também estamos cansados de saber, é que povo culto, educado e informado não vota em político despreparado.

    Desde que Raimundo Colombo tomou posse, e lá se vão cinco meses, a classe artística aguarda por uma proposta para a área, principalmente por causa da tragédia dos últimos oito anos, com a política de balcão do governo anterior. Quando o secretário Cezar Souza Junior assumiu, ouvimos, nos bastidores, um desagravo. Afinal, lá vinha “mais um” que não é da área, e que ainda por cima vai dividir seu tempo com as necessidades do esporte e do turismo.

    Faz alguns dias, foi instalada, na Assembleia Legislativa, a Frente Parlamentar em Defesa da Cultura. Estavam presentes o secretário de Turismo, Esporte e Cultura, Cesar Souza Junior, o superintendente da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), Joceli de Souza, além da representante regional do Ministério da Cultura(MinC) e a deputada estadual Angela Albino, proponente da Frente. Triste Estado este que necessita de defesa parlamentar para sua cultura.

    Cesar Souza Junior, além de chegar atrasado, mal acabou seu discurso e foi embora. Afirmou que tinha outros compromissos. É óbvio que os outros compromissos não eram com a cultura. E a principal e primeira das reivindicações da categoria é uma secretaria exclusiva, para que essa situação não ocorra mais. E não foi a primeira vez que o secretário apareceu em público para falar e não ouvir.

    Outros três pontos são reivindicados há mais de 10 anos, e estão mais do que documentados em encontros, debates, cartas, artigos de jornal e, inclusive, uma manifestação pública. São eles: 1) Uma política de Estado, não de governo, porque sempre que um governo quer “fazer” cultura todos saem perdendo; 2) A reformulação total e urgente do Funcultural, fazendo com que a verba disponível seja investida em editais públicos e em projetos que não precisem da espúria captação com empresários; 3) A criação de editais públicos por área, e que sua formulação seja amplamente debatida com a classe.

    Os governos governam e os artistas fazem arte. Esta deveria ser a lógica de um Estado que se arvora de ser rico, industrializado e com alto índice de alfabetização. Porém, é o Estado que menos exporta cultura, por causa destas e outras omissões e equívocos. Santa Catarina é também o Estado mais atrasado do país no que se refere a uma política pública para a cultura, pois nem uma secretaria exclusiva existe, ao contrário de quase todos os outros da federação, incluindo os mais importantes.

    Portanto, cultura 100% já.
  • Além do mais... Em defesa de um jeito de falar tupiniquim

    O debate sobre a cartilha do Ministério da Educação, que diz aceitar “falares” e “dizeres” das mais variadas regiões do país provou mais uma vez que a elite fala sem ler. Há tempos, como bem lembrou o colunista Victor da Rosa, na sua coluna de segunda-feira aqui no DC, a maioria dos linguistas já aceita a diversidade e a riqueza da língua portuguesa usada no Brasil.

    Se não fosse o povo, como dizia o poeta russo Maiakóvski, o verdadeiro inventa-línguas, estaríamos falando ainda “vossa mercê”. O que seria de Guimarães Rosa, um dos mais importantes prosadores da literatura universal do século passado, se ele não pudesse reproduzir o linguajar do sertão? E de Oswald de Andrade, o descobridor do Brasil, e seu genial romance Memórias Sentimentais de João Miramar? O que será de todo o cidadão do Planalto Serrano e do Meio-Oeste catarinense, que quase na sua totalidade inventa formas de falar como “ponhar” ao invés de “pôr”, e que insiste em falar “nóis fumo”? Quem defende mais a sua língua? A elite que critica o povo e coloca em suas lojas off ao invés de “liquidação”, e vai ao “shopping” ao invés de ir a um centro de compras, ou o serrano que diz “nóis peleamo uma barbaridade”, e todos compreendem o que ele diz?

    Viva Oswald de Andrade, descobridor da língua brasileira, e “a contribuição milionária de todos os erros”. Abaixo os arcaísmos de uma elite neocolonizada, que acha “chique” falar inglês, mas nunca leu nada sobre a existência de “preconceito linguístico”, que é do que trata a cartilha. Abaixo a elite que reclama dos “erros”, mas não consegue compreender que a barbárie se instalou no dia em que ela abandonou a escola pública, e que ainda acha um absurdo professor fazer greve por um salário justo.

Comentários

Daniel disse…
Falar "centro de compras" no lugar de "shopping" seria de um ridículo atroz, além de não cumprir bem a função comunicativa, já que um centro de compras pode ser qualquer coisa, galeria, calçadão, enquanto que todos sabem que um shopping é um shopping.
Anônimo disse…
podemos falar errado, mas, escrever errado, jamais. regionalismos a parte, penso que estás querendo defender o que é indefensável.

Beto Tavares.

Postagens mais visitadas