5 de junho de 2011

  • CULTURA 100%

    Apenas para lembrar, já que é comum em Santa Catarina o desprezo pela história: faz mais de uma década que artistas e produtores culturais do Estado redigem documentos propondo uma política pública democrática para a cultura. Mas como é de hábito, os políticos, de modo geral, fazem ouvidos moucos para a palavra cultura. O motivo, também estamos cansados de saber, é que povo culto, educado e informado não vota em político despreparado.

    Desde que Raimundo Colombo tomou posse, e lá se vão cinco meses, a classe artística aguarda por uma proposta para a área, principalmente por causa da tragédia dos últimos oito anos, com a política de balcão do governo anterior. Quando o secretário Cezar Souza Junior assumiu, ouvimos, nos bastidores, um desagravo. Afinal, lá vinha “mais um” que não é da área, e que ainda por cima vai dividir seu tempo com as necessidades do esporte e do turismo.

    Faz alguns dias, foi instalada, na Assembleia Legislativa, a Frente Parlamentar em Defesa da Cultura. Estavam presentes o secretário de Turismo, Esporte e Cultura, Cesar Souza Junior, o superintendente da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), Joceli de Souza, além da representante regional do Ministério da Cultura(MinC) e a deputada estadual Angela Albino, proponente da Frente. Triste Estado este que necessita de defesa parlamentar para sua cultura.

    Cesar Souza Junior, além de chegar atrasado, mal acabou seu discurso e foi embora. Afirmou que tinha outros compromissos. É óbvio que os outros compromissos não eram com a cultura. E a principal e primeira das reivindicações da categoria é uma secretaria exclusiva, para que essa situação não ocorra mais. E não foi a primeira vez que o secretário apareceu em público para falar e não ouvir.

    Outros três pontos são reivindicados há mais de 10 anos, e estão mais do que documentados em encontros, debates, cartas, artigos de jornal e, inclusive, uma manifestação pública. São eles: 1) Uma política de Estado, não de governo, porque sempre que um governo quer “fazer” cultura todos saem perdendo; 2) A reformulação total e urgente do Funcultural, fazendo com que a verba disponível seja investida em editais públicos e em projetos que não precisem da espúria captação com empresários; 3) A criação de editais públicos por área, e que sua formulação seja amplamente debatida com a classe.

    Os governos governam e os artistas fazem arte. Esta deveria ser a lógica de um Estado que se arvora de ser rico, industrializado e com alto índice de alfabetização. Porém, é o Estado que menos exporta cultura, por causa destas e outras omissões e equívocos. Santa Catarina é também o Estado mais atrasado do país no que se refere a uma política pública para a cultura, pois nem uma secretaria exclusiva existe, ao contrário de quase todos os outros da federação, incluindo os mais importantes.

    Portanto, cultura 100% já.
  • Além do mais... Em defesa de um jeito de falar tupiniquim

    O debate sobre a cartilha do Ministério da Educação, que diz aceitar “falares” e “dizeres” das mais variadas regiões do país provou mais uma vez que a elite fala sem ler. Há tempos, como bem lembrou o colunista Victor da Rosa, na sua coluna de segunda-feira aqui no DC, a maioria dos linguistas já aceita a diversidade e a riqueza da língua portuguesa usada no Brasil.

    Se não fosse o povo, como dizia o poeta russo Maiakóvski, o verdadeiro inventa-línguas, estaríamos falando ainda “vossa mercê”. O que seria de Guimarães Rosa, um dos mais importantes prosadores da literatura universal do século passado, se ele não pudesse reproduzir o linguajar do sertão? E de Oswald de Andrade, o descobridor do Brasil, e seu genial romance Memórias Sentimentais de João Miramar? O que será de todo o cidadão do Planalto Serrano e do Meio-Oeste catarinense, que quase na sua totalidade inventa formas de falar como “ponhar” ao invés de “pôr”, e que insiste em falar “nóis fumo”? Quem defende mais a sua língua? A elite que critica o povo e coloca em suas lojas off ao invés de “liquidação”, e vai ao “shopping” ao invés de ir a um centro de compras, ou o serrano que diz “nóis peleamo uma barbaridade”, e todos compreendem o que ele diz?

    Viva Oswald de Andrade, descobridor da língua brasileira, e “a contribuição milionária de todos os erros”. Abaixo os arcaísmos de uma elite neocolonizada, que acha “chique” falar inglês, mas nunca leu nada sobre a existência de “preconceito linguístico”, que é do que trata a cartilha. Abaixo a elite que reclama dos “erros”, mas não consegue compreender que a barbárie se instalou no dia em que ela abandonou a escola pública, e que ainda acha um absurdo professor fazer greve por um salário justo.

2 comentários:

Daniel disse...

Falar "centro de compras" no lugar de "shopping" seria de um ridículo atroz, além de não cumprir bem a função comunicativa, já que um centro de compras pode ser qualquer coisa, galeria, calçadão, enquanto que todos sabem que um shopping é um shopping.

Anônimo disse...

podemos falar errado, mas, escrever errado, jamais. regionalismos a parte, penso que estás querendo defender o que é indefensável.

Beto Tavares.