28 de agosto de 2011

  • Adoradores de lixo

    Houve uma época, no fim dos anos de 1970, em que os governos brasileiros apregoavam a poupança como estratégia de desenvolvimento. Embutida na propaganda, havia a promessa de um planejamento futuro. Eu era ainda garoto quando achava a ideia do cofrinho bem divertida. Pedia aos tios e parentes uma moedinha. No fim do mês, depositava em uma agência da Caixa Econômica Estadual (sim, havia uma) só pelo prazer de conferir o saldo, somado ao do depósito anterior.

    É desse mesmo período a lembrança dos mercadinhos. Neles, pedíamos ao dono os produtos necessários. Ele anotava numa caderneta e assinávamos, como prova da aquisição. A primeira vez que entrei num supermercado, o que equivaleria hoje apenas um departamento de um supermercado, acreditei que minha avó estava roubando, porque pegava as “compras” direto nas prateleiras. Mas o que vale para essa conversa é que para comprarmos bebidas, deveríamos levar a garrafa, à qual chamávamos de “casco”.

    Passados quase 40 anos, os hábitos de produção, consumo e economia se transformaram totalmente. Os mercadinhos foram engolidos pelas grandes redes, não é mais necessário “levar o casco” e parece ser um absurdo guardar dinheiro ou poupar. Ainda guardo moedas. Outro dia, quando o cofre estava cheio, levei-as para trocar em uma padaria. A dona, ou gerente, achou um absurdo, argumentando que precisava tanto daquelas moedas. “Tem que gastar, ela disse”. Sim, pensei, não se pode mais economizar moedas e, possivelmente, não se fabricam mais porquinhos.

    Há uma questão fundamental imbricada nessa prosa, mas pouco, ou mal refletida pela sociedade, que é a ideia da reciclagem. Refazer, reestruturar, dar outro sentido ou transformar um objeto usado em outro pode parecer uma proposta ecologicamente correta do ponto de vista do consumo. Porém, não altera nada os padrões de produção. Ecologicamente correto não é reciclar garrafas de plástico, por exemplo, mas parar imediatamente de produzi-las. Se um dia levamos e trouxemos garrafas de vidro, por que não podemos mais fazer isso? Reduziríamos em milhares de milhões de toneladas de lixo na natureza. Do mesmo modo, não é mais sensato produzir sacolas de plástico para carregar compras. Estima-se que sejam produzidas, hoje, um milhão de unidades destas sacolas por minuto no planeta.

    Para não ficarmos apenas nas sacolas, há um dado estarrecedor na lógica da produção e consumo. De todas as coisas produzidas e consumidas no planeta apenas 1% ainda será utilizado depois de seis meses. Isso significa que a lógica da produção é o incentivo ao consumo pelo consumo, não pela necessidade. Os outros 99% são transformados em lixo, ocupando solo, sujando rios, emitindo gases poluidores. Compramos coisas com uma finalidade, a de que elas se transformem em lixo em menos de seis meses.

    Se perguntarem para cem pessoas o que fariam se ganhassem US$ 2 milhões na loteria, 90% comprariam carros, casas, mudariam os móveis etc. Talvez 10% de sensatos venderiam tudo para morar em um hotel e viver com aquele 1% que não vai para o lixo. Mas, na lógica capitalista, você só é gente se comprar, mesmo que já tenha.
  • Além do mais... 

    Os padrões de consumo tão propagados e mantidos por publicitários – que só faltam chamar a gente de estúpido se não comprarmos o “produto que todo mundo já tem” – têm sua cota de poluente também na produção de proteína animal. Metade dos grãos produzidos no planeta é destinada aos animais de abate. Para cada quilo de carne produzida são necessários 43 mil litros de água. Se considerarmos que um quinto da população não tem sequer grãos para comer, que dirá carne, e outro tanto não tem água, chega a ser quase criminoso esse sistema de produção e consumo. Sem contar que pelo menos 16% da Floresta Amazônica (foto) foi devastada apenas para criação bovina.
  • Rios poluídos

    Em 2002, por exemplo, o governo Federal destinou quase US$ 20 milhões para combater a poluição dos rios dos três estados do Sul causada pela suinocultura. Isso sem contar a poluição atmosférica causada pelo gás metano. A mesma nota dizia que o mesmo governo investiria apenas US$ 1 milhão para incentivo às práticas agroecológicas e de ecoturismo na região da Serra do Tabuleiro.
  • Sem lógica

    A lógica dos governos e das grandes corporações há muito tempo comprou corações e mentes da iletrada classe média brasileira. Desinformada, distante das discussões essenciais, resta a ela consumir sem pensar. Pela mesma lógica é que esses mesmos governos não querem investir em educação e cultura, porque fabricaria muita gente informada, que não precisará de muito na vida, apenas o suficiente para ter o essencial, aquele 1% que não vai para o lixo.

2 comentários:

Juan PLC Salazar disse...

Parabéns pelo ótimo texto!

Concordo plenamente. Um grande passo para melhorar a qualidade de vida e diminuir o impacto que o ser humano tem sobre o meio ambiente é destituir-se de aparelhos de televisão. Se não o aparelho, pelo menos a assinatura da televisão a cabo ou mesmo a antena se você só assiste à canais abertos. Esse aparelho existe primordialmente para convencer seu usuário de que precisa comprar muitas coisas das quais realmente não tem a menor necessidade. Nem tudo que está na televisão é ruim, claro, mas o que tem de bom pode ser visto de outras formas.

É difícil viver na contra corrente de consumo, mas vale a pena. Aos poucos tento fazer a minha parte, não para salvar planeta algum, mas por convicção de fazer o que acho certo. Porque na verdade o planeta não precisa ser salvo. Ele continuará existindo, nós é que não.

Antonio C Silva disse...

Muito bom e oportuno esse texto, Fábio. Oportuno porque nestes dias o "glorioso" exgov de SC, hoje senador, está apresentando o relatório do tal código florestal, sem sequer ouvir os cientistas da área e muito menos os ambientalistas. Ouviu sim, e atendeu, apenas aos interessados nos lucros do agronegócio, ás custas da degradação ambiental. E milhões de imbecis votaram nele!!!