24 de setembro de 2011

  • O paradoxo corporativista

    O ideal corporativista é falsamente imbuído de um propósito de autopreservação. Tanto que a definição no dicionário Houaiss é bem clara: “Corporativista é aquele que age segundo os interesses da categoria profissional a qual pertence, não considerando o todo social.”

    Os exemplos são inúmeros, e abundam da esfera pública até a privada. Poucos percebem que o “real” (se é que podemos usar esse termo) da vida pública nunca é diferente do que acontece na vida privada. É comum, e está documentado em todas as mídias possíveis, brigas entre deputados ou entre vereadores nas suas respectivas casas legislativas. Um deputado acusa o outro daquilo que nem mesmo nós, eleitores educados e democratas, teríamos despudor de acusar. Mas as acusações nunca têm um propósito ideológico, uma tentativa mínima de propor uma legislação, uma emenda, uma ideia razoável qualquer. Elas sempre têm um caráter pessoal, de disputa partidária, bairrista, familiar muitas vezes. Mas se a imprensa (que só é vil quando é contrária aos “meus” interesses, eles pensam) descobre uma falcatrua de um único legislador, todos os outros, inclusive aqueles que sabem, mesmo sendo inimigos, veem nessa descoberta uma acusação contra a “democracia” e o “interesse público”. No resumo da ópera, o certo é que políticos ruins sempre existirão enquanto existir eleitores ruins. Como eleitor ruim só se cura com educação política, e a educação política é projetada por políticos ruins, significa que estamos num mundo totalmente ruim.

    A praga corporativista está em todas as partes. Na medicina, no direito, até no jornalismo, com a insistência dos sindicatos em achar que é salutar exigir um diploma para o exercício da profissão. Do mesmo modo, todas as escolas privadas dizem que são as melhores, formam os melhores alunos, têm o melhor futuro a oferecer. Pela lógica cartesiana, se uma delas é a melhor, significa que as outras são piores. Mas se eu falar que é um ultraje à democracia a existência de escolas privadas (por um princípio filosófico que posso explicar noutra pensata), todas elas, em uníssono e numa autodefesa de dar inveja, transformam-se automaticamente em excelentes escolas.

    Para os médicos, todos os médicos são bons. Para os advogados, todos os advogados são bons, mas eles não confiam nas escolas que estudaram, porque mesmo se você for um brilhante aluno, durante toda a vida acadêmica, só poderá exercer a profissão para a qual estudou se fizer outra prova, aplicada pelos seus pares. Estranho paradoxo do corporativismo. Para os juízes, todos os juízes são bons, mesmo que um deles tenha provas mais que suficientes para mandar prender outro, e assim por diante.

    A única corporação, e isto é um grande paradoxo, que não se defende, pelo contrário, se mata todos os dias, é a corporação humana. Contrariando a lógica roussoniana de que todo homem nasce bom, para a maioria dos seres humanos, o outro não presta, desde que, logicamente, pertença à sua classe social, tenha a mesma profissão, use a mesma roupa, tenha a mesma cor de pele, ouça as mesmas músicas e, o mais importante, tenha as mesmas ideias.
  • Além do mais... E os botecos?

    Tenho saudade dos botecos. Onde estão eles? Até os anos 1980, mudávamos o mundo, brigávamos contra a profissionalização do capitalismo, apesar de o mundo insistir em permanecer esta droga que é, numa mesa de bar. No Lugar Comum, no Peculiar, no Papo Pra Lua, e, no mais recente, o finado Café Matisse (no finado CIC), podíamos conversar sobre tudo. As atuais gerações não gostam de conversar, talvez porque não tenham muito assunto, ou talvez porque conversam tanto pela internet, que não sobra assunto para os botecos. As novas gerações saem de casa para dançar, o que chamamos de “balada”. Quem gosta de conversar, que fique em casa, chame os amigos que ainda gostam de uma boa prosa, e volte a mudar o mundo, que ele anda necessitado de mudanças.
  • Fábulas falidas

    Faz tempo que tenho vontade de falar da fábula da Cigarra e da Formiga. Por conta dela, cantores, músicos e artistas em geral são considerados vagabundos e contraproducentes. Até hoje ainda tem gente que acha que eu não faço nada, porque escrevo. Como pode alguém viver escrevendo? Isso é coisa de vagabundo, de quem vive nos botecos e fala mal das corporações e do capitalismo. Tem que trabalhar igual as formigas, no inverno, para ter o que comer no verão. Mas aprendi com o poeta Torquato Neto a “desafinar o coro dos contentes”. Sendo assim, continuarei acreditando que o profissionalismo é perverso e escravocrata. Sou mesmo um amador, que é aquele que ama.

    Diário Catarinense, 24 de setembro de 2011.

 

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