7 de abril de 2012

OS GOVERNOS MERECIDOS

         Há uma tendência, talvez atávica, de o animal humano gostar da servidão (tanto para ser o senhor quanto cativo). Sobre isso, já escreveu Étienne de la Boétie, humanista francês contemporâneo de Montaigne, um dos ensaístas mais brilhantes do século XVI, pai, aliás do termo “ensaio”. La Boétie inicia a dialética da servidão já no título de sua principal obra: Discurso sobre a servidão voluntária, pois, aparentemente, como alguém escolheria a servidão? Por que alguém sacrificaria a liberdade de forma espontânea?
          Considerado, antes mesmo de Bakunin (com seu instigante Textos anarquistas, de 1874), como sendo um livro a favor do anarquismo, la Boétie, faz um questionamento crucial sobre a supressão voluntária da liberdade. Mas para não deixar a prosa muito comprida, o que la Boétie diz no fim é que a liberdade só é conquistada quando se quer. Quando ele pergunta de onde um único homem tira tanto poder para controlar a todos, está atribuindo o caráter de voluntariado ao servilismo. Seria isso que o animal humano precisa: um tirano e um deus que o castigue? Seríamos atavicamente masoquistas? Isso explicaria a frase, tão comumente aceita e declarada, de que todo povo tem o governo que merece?
Essa pequena introdução foi necessária para trazer ao nosso pequeno burgo, a Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, e (por que não?) estender ao Estado, a Santa e Brega Catarina, sobre o comportamento político da última década. Não nos cabe escolher o secretário disso e daquilo, nem tampouco o homem que abrirá a porta de entrada do palácio. O que nos cabe de direito, através do voto, é escolher o prefeito e o governador. Mas nunca é demais, só para lembrar a microfísica do poder, de Michel Foucault, quem nos dará ou não a senha para conversar diretamente com aquele que nós elegemos é o porteiro que não escolhemos. Quem move a máquina que nos engole não é necessariamente o prefeito, coitado, tão envolto com problemas que nem são da cidade e dos seus cidadãos, e sim com sua reeleição, mas o estafeta que emperra um projeto, o fulano de carreira que não leva seu documento adiante, o funcionário que tem a frase sempre pronta: “Nós não podemos fazer nada, são ordens”. O que não nos damos conta, nisso que vou chamar de voluntarismo da burocracia, é que, na maioria das vezes, não existe ordem, existe apenas um vício de origem. As coisas funcionam assim desse modo há tanto tempo que chega a soar insanidade mudar o que é ruim.
        Como podemos deixar de ser reféns dessa doença social que é a relação quase bizarra entre poder e cidadão? Será que seremos eternamente cativos da ignorância? Quantos prefeitos e governadores ignorantes e inoperantes ainda passarão sem nos darmos conta de que apenas nós podemos recusar suas presenças? Quanto tempo passará ainda até o dia em que não precisarmos mais ter que dizer que cada povo tem o governo que merece? Sei que sou minoria desse povo, mas não me vejo em nenhuma hipótese sendo representado por essa gente tão desqualificada, e nem quero mais passar por servil à burrice. Já está na hora daqueles que pensam um pouquinho mais, que não se locupletam com a barbárie na qual a cidade em que vivemos está se transformando, fazer algo a respeito disso. Está na hora da primavera ilhoa. Mas para isso, é preciso reconhecer, primeiro, que somos servis da ignorância, e, cientes disso, nos rebelarmos a favor da nossa liberdade.

ALÉM DO MAIS...
SOBRE A MARATONA CULTURAL
        Falando em prefeito, o da Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, Dário Berger, é o exemplo ideal como personagem da pequena pensata acima. Acompanhei a Maratona Cultural de perto, e a todos os eventos que fui, incluindo o do cantor e compositor Lenine no encerramento – que lotou a avenida mais burguesa da ilha – pessoas voltavam para casa por falta de lugar.  A ideia da Maratona é exatamente o que se chama de política de Estado. Ou seja, quem faz, organiza, administra os eventos, fatos e objetos culturais é o povo, não o governo. A Maratona, para os mais desavisados, não é um projeto idealizado pelo ex-secretário Cesar Souza Júnior (ainda que a tenha usado como palanque eleitoral), mas pela Harmonia Produções. O Estado de Santa Catarina é apenas o apoiador, e não o governo. O único senão que faço é que trata-se de um projeto que deveria ter passado pelo aval do Conselho Estadual de Cultura, que é para isso que foi constituído e é para isso que serve. Infelizmente, o conselho está sendo omisso quando não denuncia o próprio limbo em que se encontra. O ex-secretário não fez nada do que prometeu na sua curta passagem pela pasta mais bizarra do governo do Estado, que mistura turismo, esporte e cultura. O ex-secretário não cumpriu com a tarefa que se propôs de lançar, ainda no ano passado, o edital de apoio à cultura, nem o fundo direto, nem o prêmio Cruz e Sousa, enfim, nada, absolutamente nada. O que temos, no fim e ao cabo é um roto falando do rasgado, porque o prefeito, no alto da sua sabedoria e da sua extrema erudição cultural, segundo a organizadora da Maratona, Paula Borges, e da imprensa presente, disse que a Maratona era “um evento insignificante, que não tem publico, não tem artistas, não tem boa programação, ou seja é um fracasso”. Espero que as urnas defenestrem de vez esse tipo de pensamento, infelizmente ainda apoiado pela maioria da população. Só nos resta saber se é por servilismo contumaz ou por ignorância mesmo.

Um comentário:

Frank Marcon disse...

Talvez, pelos dois motivos.