5 de maio de 2012

PELO FIM DA IGNORÂNCIA

Em 29 de janeiro de 2011, publiquei, aqui mesmo nesse espaço, uma carta ao meu conterrâneo, (por coincidência, o governador do Estado, Raimundo Colombo), uma carta aberta (leia aqui). Nela, entre outras questões, avisava ao incauto recém mandatário que existia uma insatisfação generalizada por parte dos trabalhadores da cultura (incluindo produtores, artistas e intelectuais, o que não é pouca coisa) em relação aos desmandos por parte do seu antecessor em relação às políticas públicas para o setor. Eu dizia, entre outras coisas, que a indústria cultural é a terceira maior do mundo e que Santa Catarina, que tanto se orgulha de ser uma federação criativa, não poderia ter um governo tão omisso em relação às artes e à cultura.

Ciente de que ele não sabia disso, porque todos os políticos em geral não creem que arte e cultura sejam importantes, porque para eles a palavra progresso tem a ver única e exclusivamente com asfalto, pontes, viadutos e construção civil, publiquei a carta para que ele não passasse por ignorante. O que fica feio para um governo, principalmente porque os outros não se importaram em passar para a história como sendo.

No aviso, ou na tal missiva, deixei bem claro, e reproduzo para os leitores que não lembram, e para o próprio, que, ao que parece, não leu: “É sabido e notório – e quem produz independentemente sabe e fala disso – o desastre que foi o seu antecessor na área da cultura, por ter juntado três pastas distintas (esporte, turismo e cultura) numa única; por ter acabado com os editais que funcionavam (ainda que modestamente), criando um apenas no último de seus oito anos de mandato; e por ter feito uma política de governo, enquanto todo o mundo sabe que o ideal é uma política de Estado. Mas para criá-la é preciso, antes de mais nada, conversar com quem produz, porque não cabe ao governo, nem ao Estado fazer cultura, mas sim à comunidade.” E, para completar, para que ele, o governador, não soubesse o que fazer, reproduzi as reivindicações históricas da categoria: “1) criar uma secretaria de cultura; 2) rever urgentemente o Funcultural e acabar com todos os seus vícios; 3) ouvir a categoria para criar, ainda este ano, um edital democrático, claro e inteligente para a área. Estas três medidas seriam o começo do maior investimento para a cultura que um governador já teria feito em toda a história de Santa Catarina. Por que não ousar fazê-lo?”

Como ninguém avisou, nem mesmo seus assessores, até porque são de partidos diferentes e têm lá, todos sabem, suas pendengas internas e históricas, aconteceu o que não precisava ter acontecido. Artistas e produtores da Capital e de outras cinco cidades, Joinville, Jaraguá, Criciúma, Itajaí e Chapecó, importantes economicamente, foram às ruas, às secretarias regionais para entregar uma carta/pedido (que resume o que está escrito acima), solicitando providências imediatas. Aqui na Ilha dos Aterros, ocuparam o Centro Integrado de Cultura para relembrar o governo que é necessário e urgente que ouça seus artistas e faça o óbvio, para não fazer feio diante de outros estados que têm suas secretarias, seus planos, seus fundos e seus editais funcionando. E, também, para que seus trabalhadores da indústria cultural possam efetivamente trabalhar e pagar seus impostos em dia para o franco desenvolvimento do Estado.

ALÉM DO MAIS...
AGORA VAI?

Durante toda a semana que passou, o CIC foi ocupado com inúmeras manifestações artísticas, mas, parece que o governador nem sabe do que se trata, já que seu superintendente, Joceli de Souza, não é da mesma turma do governador, porque responde, ainda, ao ex-secretário, Gilmar Knaesel, num acordo político, para nós, simples mortais que queremos apenas trabalhar, difícil e até inútil de entender. O que fica no ar é que o governador, sem ter mando algum de voz, a priori, na acepção kantiana, escolheu por omissão o lado ignorante da questão, qual seja, pensar que o Estado de Santa Catarina não precisa de uma indústria cultural, talvez porque, se promover seus cidadãos a uma condição de pensadores, leitores, espectadores ativos, deixarão de ser também ignorantes como seus governos e, assim, não os escolherão mais, nem mesmo para síndicos.

O movimento de ocupação do CIC não precisava ter acontecido se o governo não tivesse feito ouvidos moucos, se tivesse escolhido assessores menos politiqueiros e mais intelectuais, se tivesse ouvidos os trabalhadores, artistas e produtores, se tivesse a capacidade intelectual mais apurada para compreender que um povo sem cultura e sem educação é como gado que se toca sem se importar para onde vai.

AQUELA QUE FAZ PENSAR

Lembro de que no dia da posse do senhor Cesar Souza Júnior, o mesmo que prometeu mudar tudo isso e não conseguiu, talvez porque tenha esquecido a carteira de identidade antes de embarcar para Chapecó no dia do lançamento do Edital de Cinema, conversei com um assessor da Santur, meu conterrâneo também, o senhor Flavio Agustini, que me disse, num tom bastante irônico: “O governador (em alusão à minha carta) só vai fazer se ele (grife, leitor, por favor) quiser”. E eu respondi: “Ele não gostará de passar por ignorante”.

Portanto, meu conterrâneo tem mais uma chance de passar para a história como sendo o cara que criou e incentivou a indústria mais importante e menos poluente e mais necessária para os tempos bicudos em que vivemos, aquela que faz o povo se alegrar, se comover, se emocionar e, principalmente, aquela que mais faz pensar.
 
Publicado no Diário Catarinense, 5 de maio de 2012

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