28 de julho de 2012

SE EU FOSSE CANDIDATO

          Fui, sou e provavelmente (porque aprendi que a língua é o chicote da bunda) serei sempre da turma do Groucho Marx, que desconfiaria de qualquer clube que o aceitasse como sócio. Nunca fui filiado a partidos políticos (cuja homofonia com o verbo partir é reveladora), a igrejas ou clubes. Fui presidente da União Brasileira de Escritores, cujo mandato foi catastrófico, e durante um ano inteiro fui coordenador geral da Fundação Franklin Cascaes (espécie de chefe de gabinete) em 2006. Mas fui defenestrado por questões exclusivamente políticas. Não por ser defensor da instituição, como todos que ocupam estes cargos o são, mas por ser crítico interno da falta de ação, planejamento e de uma política mais democrática e justa para o setor. É bem provável que não interesse a ninguém a conversa de alguém que não fede nem cheira politicamente. Sou apenas um pensador selvagem, mas que ainda tem título de eleitor e, por conta disso, tem direito constitucional de emitir opinião sobre os destinos de uma cidade que pelo menos desde os anos de 1970 foi administrada por interesses apenas privados e por eleitores, na falta de palavra melhor, omissos. Afinal, quem escolhe os administradores é o eleitor.
          Se eu fosse candidato, em primeiro lugar, possivelmente eu teria apenas o voto da minha família. E isto, não interessa a nenhum partido, porque seus programas de governo têm zero de ideias e cem de fisiologismo e vontade de poder. Para certificar essa afirmação, basta conferir as coligações e os conchavos das candidaturas. Se eu fosse candidato, eu não veicularia musiquinhas toscas (que os marqueteiros neocolonizados chamam de jingle). Não entendo o motivo pelo qual os partidos brigam e fazem tantas coligações espúrias para obter mais tempo na tevê e no rádio se depois não usam para expor ideias. Isso demonstra que eles talvez não tenham ideias.
          Se eu fosse candidato priorizaria a cultura, porque é reveladora de toda a insanidade urbana. O fato de a elite achar que é feio andar de ônibus, ou colocar seu filho em uma escola pública é uma questão cultural. O fato de as pessoas acharem bonito destruir patrimônio histórico para dar lugar a prédios de arquitetura duvidosa é um problema cultural. O fato de existir um merdário bem na entrada da Ilha dos Aterros é um problema cultural. Se vivêssemos em uma cidade culta, se houvesse há tempos uma política pública democrática, com editais públicos, com uma casa legisladora que fosse culta, o centro histórico da Ilha seria hoje uma das atrações turísticas mais prestigiadas da América. Se tivéssemos tido, no passado, prefeitos que fossem ousados e não tão iletrados, a estátua da Polícia Militar na Beira-Mar (nada contra a instituição, mas o mau gosto da escultura) já teria sido substituída pelo pássaro gigante de Eli Heil. Mas quantos habitantes dessa Ilha tão exageradamente cafona conhecem dona Eli?
          Se eu fosse candidato, proporia a proibição da entrada de automóveis no Centro Histórico. Os ônibus seriam gratuitos e de qualidade, porque o direito de ir e vir de apenas um cidadão em seu automóvel não pode nunca ser maior do que 60 dentro de um ônibus. Se eu fosse candidato, proporia a estatização de todo o sistema de saúde e de educação e a conseqüente contratação de quantos funcionários fossem necessários para jamais um cidadão morrer no corredor do hospital. Do mesmo modo, proporia a construção de hospitais, clínicas e postos de saúde na quantidade recomendada pela Organização Mundial da Saúde. Se eu fosse candidato, proporia a construção de quilômetros de estrada, mas para bicicletas, não para os automóveis; e o transporte marítimo seria prioridade. Se eu fosse candidato uma das plataformas de governo seria a suspensão de todas as construções, até que se fizesse um levantamento honesto de seus devidos impactos ambientais. Se eu fosse candidato, proporia a construção da maior biblioteca da América Latina na Ponta do Coral, porque é de livros que precisamos e não de asfalto ou de hotéis. O lema de minha campanha seria: Menos asfalto, mais cultura.
          E se fosse permitida a inscrição de uma candidatura independente, como nos Estados Unidos, e se por uma loucura qualquer eu fosse eleito, enfim, a elite tacanha da Ilha pediria meu impeachment por insanidade, e o povo aceitaria tranquilamente, porque sofre do mesmo mal do qual eu seria acusado: insanidade. Porém, por vias distintas. Eu por achar que devo ser feliz murando numa ilha respirando arte por toda parte. O eleitor e a elite, por achar que a felicidade está dentro de um centro de compras em pleno mangue.

ALÉM DO MAIS...
Turismo não é só praia e hotel de luxo.
          Os dois maiores destinos turísticos do mundo hoje são a França e a Espanha. Ambos os países, segundo os turistas que os procuram, são visitados pelos respectivos patrimônios artísticos e históricos. A Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, ao contrário, quer atrair turistas ignorando completamente os dois maiores atrativos. Aqui, patrimônio histórico é derrubado para dar lugar a centros de compras. Mas o turismo de compras está em Miami e Nova Iorque, onde tudo é mais barato. E quanto ao patrimônio cultural, os governantes investem em Andrea Bocelli e duplas sertanejas. Enquanto isso, um minguado edital municipal e um fundo minúsculo, menores do que o de muitos municípios do interior, penam para saírem das gavetas. Quanto às praias, estas, em breve, estarão como Balneário Camboriú, onde os prédios à beira mar cobrem a luz do sol às três da tarde. Esse é o retrato cruel da elite e consequentemente do seu eleitor que a escolhe, muitas vezes por um punhado de arroz, outras por ignorância mesmo, porque é com ela que candidatos e partidos contam quando escrevem ou improvisam suas musiquinhas estúpidas e seus discursos óbvios, ignorantes e extemporâneos.

Publicado no Diário Catarinense, em 28 de julho de 2012

3 comentários:

Daniel Moura disse...

Se fosses candidato, só por este texto, terias o meu voto!

Anônimo disse...

Não custa tentar... Vai lá!

Nayana. disse...

Qual o número? :)