1 de dezembro de 2012


           SOBRE A GÊNESE DA VIOLÊNCIA


            A partir do momento em que o Estado perde o controle total sobre a segurança pública é preciso perguntar – antes de mais nada – por qual motivo isto acontece. Toda violência generalizada é fruto da falta de investimento em educação e cultura. Na Islândia, o país com a menor taxa de homicídios do mundo, mais da metade das famílias têm por hábito passar os fins de semana nas bibliotecas públicas. Portanto, quando um governo deixa de lançar editais de cultura (obrigados por lei), quando obscurece as curadorias com comitês gestores que privilegiam apenas projetos do próprio governo (e qualquer um que tenha lido um livro sabe que cultura feita por governo sempre tem cunho fascista), quando mantem em seus quadros comissionados gerentes e diretores que não conseguem dialogar com artistas e produtores, está diretamente desrespeitando as regras democráticas. Se os governos desrespeitam as leis, por que sua população deveria respeitá-las? Desrespeito gera desrespeito e violência idem.

             Na abertura do teatro Ademir Rosa, por exemplo, o governador deixou escapar a pérola: “O artista, muitas vezes atua apenas pelo aplauso”. Ora, esse tipo de pensamento é que faz com que os governos tenham compaixão homicida pela arte e por quem a produz. Afinal, para que investir em arte e cultura se os artistas vivem de aplauso? Da próxima vez que tiver que pagar as contas de luz, água e outros tributos estaduais, darei uma enorme salva de palmas a elas ao invés de pagá-las. O governador, muito apreciador da arte, com certeza compreenderá.

             É triste, mas um governo que pensa deste modo é crente também que um povo precisa de asfalto mais do que de bibliotecas, naturalmente fazendo (ou por ignorância ou por desfaçatez) apologia à violência. Quando uma população perde todos os cinemas de rua, por exemplo, dando lugar ao comércio ou a templos (preconceituosos, de compreensão arcaica sobre alguns livros e contrárias ao espírito libertário da arte), perde naturalmente a noção coletiva de que o progresso, como escreveu o poeta Charles Baudelaire, não é a construção de prédios, ruas, avenidas e viadutos. O progresso, dizia ele, existirá somente quando não houver mais a extemporânea ideia de “pecado original”. E quando um governo não compreende tal metáfora está mais do que na hora de largar a prancheta da política partidária e abraçar a arte e a cultura como trabalho e geração de renda e não como passatempo merecedor apenas de aplausos.

          Enquanto a construção de um centro de compras sobre mangues e áreas cujas licenças ambientais são objetos de compra e venda, e não de análise técnica responsável, enquanto defende-se  hotéis privados e não em bibliotecas públicas em seus lugares, é óbvio que a população continuará pensando que “ter” é melhor do que “ser”. A paisagem do “ter” também incita violência, ao contrário da paisagem do “ser”. Para “ser” (e os governos não pensam nisto) é preciso formação, educação e cultura. Para “ter”, nem sempre, porque ninguém rouba conhecimento e cultura, apenas dinheiro e objetos. Os governos têm matado sistematicamente os habitantes que os sustentam (por não rara conivência e subserviência pública), seja por ignorar a arte como trabalho, seja deixando de investir em segurança com o objetivo de que as empresas de segurança aumentem seus lucros. Afinal, quando a segurança, a saúde, a educação e a cultura deixam de ser investimento público, para quem a população paga tributo? Para a privada, é óbvio. E se isto não é violência, o que será?
            
            E assim, violentamente, pagamos duas vezes para ter o que deveríamos ter quitando apenas uma vez. Uma para o Estado, cada vez mais ocupado por pessoas ignorantes (porque não pensam sequer sobre sua própria responsabilidade pela violência epidêmica), outra para a iniciativa privada, sempre com os pés dentro do Estado e mandando nele. Queimar ônibus é fichinha perto da violência que o Estado pratica todos os dias contra quem o sustenta. 

         Quando dos atentados aos Estados Unidos, em 2001, o governo norte-americano imediatamente procurou vingança cega. Poucos – como o filósofo como Noam Chomski  – perguntaram: “por quê sofremos tais atentados?” Não ouvi em nenhum momento o governo catarinense, responsável pela segurança pública, fazer tal pergunta, porque sabe há tempos a resposta: não investe no que deveria investir e gasta muito tempo e dinheiro no que não é de sua responsabilidade. E se já sabe é conivente. A conivência também gera violência.

MOSTRA.DOC
       E para quem gosta de cultura mais do que de asfalto, e acredita nela como remédio contra a violência, começa na segunda-feira, dia 3, e segue até o dia 7 de dezembro, a “mostra.doc”, na Fundação Badesc, com seis documentários. Desde “Moscou”, de Eduardo Coutinho, que abrirá a mostra, passando pelo genial “Zelig”, de Woody Allen, que na verdade é um falso documentário, o raro “Terra sem pão”, de Luis Buñuel, “Quarto 666”, de  Wim Wenders,  até “Além do azul selvagem”, de Werner Herzog. A produção da “mostra.doc”, sem nenhum apoio do Estado, é produzida por abnegados amantes do cinema, com apoio da Fundação Badesc, VideoFilmes, O Mago Realizações e Pingo no I – Arte e Cultura. E o mais importante: não será em um centro comercial, que os neocolonizados preferem chamar de “shopping”, e a entrada será franca.



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