2 de dezembro de 2014

O CONSERVADORISMO COMO TRAÇO CULTURAL DO CATARINENSE

       Proponho aqui algumas pequenas teses e um debate sobre a gênese e a continuidade de uma suposta e aludida “cultura catarinense”.
     
     Não há consenso, unidade, igualdade, pensamento único, ou qualquer hipótese da existência de traços que denotem a ideia do que se propaga, notadamente por gestores públicos e políticos, como sendo “identidade cultural do catarinense”. É uma falácia à qual não  há comprovação. Ao contrário. 

      O “catarinensismo” é uma invenção geopolítica. Seja pela formação ao longo da história, seja pelo variado traço étnico: imigrantes portugueses, alemães, italianos, poloneses, japoneses, população negra trazida à fórceps e escravizada e os primeiros habitantes indígenas. Estes últimos, apesar de pertenceram a um tronco comum, também têm cada qual seu traço cultural: xoquelengues, carijós, caigangues etc., além, no planalto serrano, da presença marcante até hoje do gaucho (pronuncio gáucho) vindo do pampa cisplatino.
      
         Os imigrantes europeus, a maioria italianos e alemães, trouxeram a presença da moral do trabalho, pela qual, com ajuda de seu deus judaico-cristão, de seus braços fortes e de uma terra fértil, também por herança, em suas visões, do mesmo deus. Assim, o paraíso brasileiro tudo lhes daria. Mas existia um entrave: os indígenas. A solução, também com o amém de seus deus, já que os habitantes eram “outros” e sem “alma”, foi combatê-los do mesmo modo como espanhóis e portugueses já haviam feito antes. O mandamento cristão de não matar foi interpretado por uma parte destes imigrantes como sendo válido apenas aos seus pares.
    
      Não foram poucas as vezes que, quando criança (e aviso que sou descendente destes imigrantes e nascido em Santa Catarina), ouvi de vizinhos o orgulho de ser bugreiro, de matar essa gente sem deus (o deles, é claro), que não “gostava de trabalhar”. Este mesmo lema, por exemplo, levado ao campo político, consagra o catarinense como sendo o mais avesso às políticas sociais e de distribuição de renda, pois “quem não trabalha não merece ganhar nada”. O pensamento do bugreiro – afinal, para o modelo de nossos colonos,  o índio não trabalhava – continua valendo, pois um imigrante não compreendeu e não quis compreender, pela força de sua educação e cultura, que a ideia de trabalho para si não serve aos índios.

      O catarinense, a partir deste único traço que consigo perceber de unidade, é conservador, preconceituoso, ignorante sobre macroquestões humanitárias, sociais, geopolíticas e, principalmente, sobre aquilo que não lhes pertence: a cultura exógena, a arte do outro, o pensamento do outro, a vontade e o desejo do outro. Este único traço (insisto que é apenas a gênese de uma pequena tese a ser debatida) é positivista e, não raro, promove e promoveu movimentos neonazistas em colônias alemãs nos anos de 1930, fartamente documentados.
     
       É curioso notar, na produção cultural do Estado, que os artistas mais conhecidos e que mais se destacaram além das fronteiras estaduais vêm de fora deste caldo. Cruz e Sousa, no século XIX, que era negro, mas teve acesso aos seus contemporâneos, principalmente Baudelaire, e citava com frequência filósofos como Shopenhauer, além de ter amigos com os quais debatia o que acontecia no mundo naquele momento em que não existia sequer telefone, e que os livros vinham de navio, é um criador quase apartado da produção pré e pós a ele mesmo, guardadas as devidas contextualizações necessárias.
        
     Nossos colonos não trouxeram livros em sua bagagem.  Vale lembrar que muito da produção cultural da Bahia veio do Recôncavo, pouso dos imigrantes árabes, e a presença dos livros foi fundamental para sua formação. A verve revolucionária de Wally Salomão, Glauber Rocha, Tom Zé e Caetano Veloso é de lá. Qual artista catarinense, com a formação cultural colona que nos tivemos pretendeu revolucionar algo?

     O mais notório deles foi Rogério Sganzerla, descendente de imigrantes italianos, empreendedores e com o perfil relatado antes, mudou-se muito jovem para São Paulo e lá teve condições de fazer seus filmes. Em Joaçaba, não apenas pela falta de equipamento, mas por ausência de estímulo, parceria e afinidade intelectual, nunca teriam sido feitos. Em várias entrevistas que deu, detonava o atraso e o provincianismo e o conservadorismo do Estado e de sua cidade natal.
     
       Não significa, no entanto, que a formação cultural do catarinense seja desprezível por isto. Os catarinenses são conhecidos como leais trabalhadores, honestos, cordiais, excelentes anfitriões, empreendedores, mas não são apenas estas virtudes que dão estofo ou estímulo para alguém produzir arte, desafinar o coro dos contentes, largar o preconceito de lado, enfim, deixar o cordialismo conservador e propor algo essencialmente novo. Tanto é, que não há proposição de vulto nesse sentido. É óbvio que há, mas não de vulto.
      
        Para as políticas públicas para a arte e a cultura este resultado é quase uma barbárie. O atual governador, Raimundo Colombo, por exemplo, fruto desta formação, crê que um dos imóveis mais simbólicos da cidade onde nasceu, Lages (por coincidência, estudei nesta escola), o Colégio Aristiliano Ramos, cuja arquitetura dos anos 30 é considerada como sendo patrimônio não apenas arquitetônico, mas cultural e paisagístico, por respeitar a linha do céu do vasto planalto serrano, deve ser demolido.  Aliás, há um projeto geral, desde o governo anterior, que é o de desativar todos os imóveis que abrigaram as escolas públicas estaduais considerados “antigos”. Depois de desativados, os imóveis, sem manutenção, entram em seu natural declínio material, para se usar o argumento de que o imóvel “pode cair a qualquer momento”. Isto tem acontecido em várias cidades, e só em Florianópolis são duas. O conluio com a especulação imobiliária é evidente. Este tipo de decisão denota a ignorância da qual somos herdeiros.
      
       O mesmo governador, agora reeleito, no dia da reabertura do teatro Ademir Rosa, chegou a ovacionar o fato de que “muitos artistas se apresentaram aqui de graça, pelo amor ao aplauso”, ignorando que não há arte sem artista se os mesmos não têm o que comer. Escrevi na época que, sendo assim, cada vez que chegasse minha conta de luz eu aplaudiria para ela e estaria paga. Mais uma vez a ideia do colono de que só é considerado trabalho aquele braçal, e que pensar, criar, ou apenas viver, não é correto.
Há muitos anos, mais de duas décadas, artistas, intelectuais, pensadores, produtores culturais solicitam uma política pública para a cultura que seja de Estado. Significa que sem leis que as embasem e que as garantam, governos podem achar que “incentivar a cultura” é publicar o livro do sobrinho, bancar uma escola de dança clássica, trazer um balé da Polônia, ou financiar uma atriz global. Para que a política seja de Estado (porque todos os governos que quiseram eles mesmos produzir cultura tiveram viés fascista) é preciso um fundo (que já existe, porém extremamente mal gerido) e que este fundo seja usado para a publicação anual de editais de incentivo.
     
         Para construir esta política de Estado já foram realizados inúmeros fóruns, seminários e conferências, criados documentos e proposições. Apesar de toda diversidade necessária, há uma receita básica consensual. É necessário criar uma secretaria de cultura, realizar concurso para que técnicos ocupem os cargos, escolher um secretário que seja da área, não o filho de um político que nada entende do negócio (como é hoje), informar a toda população de que existe um fundo, fazer com que este fundo seja administrado por um conselho paritário, e que ele financie projetos por meio de editais públicos lançados anualmente. Parece simples, e é. Por que não é aplicada? Por que o ex-governador do Estado, Luiz Henrique da Silveira, descobriu que os recursos dos fundos poderiam e deveriam ser usados para políticas de governo e não de estado, o que acontece até hoje.

        Desde que, ainda que de forma esporádica, os editais existem, várias obras, em todas as áreas têm sido publicadas, vistas, tocadas, apreciadas. E se fosse por aval apenas dos governos, com certeza elas não existiriam. Ao contrário dos editais públicos para a construção de estradas, de escolas, pontes, que devem privilegiar a ergonomia, o acerto, a lógica, os editais de apoio às artes devem também investir na experimentação, no imaginário e, por que não, no erro, como bem esclareceu o modernista Oswald de Andrade, quando disse que a poesia é a contribuição milionária de todos os erros. E é por isto que não pode ser política de governo. Quem faz arte são pessoas, grupos, jamais governos. E é óbvio ainda que os governos privilegiam grandes artistas, de cachês milionários, eventos grandiloquentes (panis et circenses) que se vão num dia, sem pensar em formação, preservação, exibição, distribuição e produção de arte. A publicação de um jovem poeta, por mais precário que seja seu livro, através de editais públicos, é muito mais importante para a cultura de um povo do que um evento milionário de uma dupla sertaneja qualquer. E muito mais barato para os cofres públicos. E muito mais democrático.

     Ainda sobre o conservadorismo cordial por parte da sociedade civil, instituições quase medievais resistem com seu pomposo arcaísmo, quase sempre de acordo com os governos, até porque sobrevivem deles, por força de lei. Apesar disso, de saberem que a lei os protege neste sentido, tanto o Instituto Histórico e Geográfico, quanto a Academia Catarinense de Letras, por exemplo, refutam pensamentos radicais (no sentido marxista, de ir às raízes), revolucionários, rebeldes, erráticos. A pompa e a circunstância, as solenidades enfadonhas, o compadrio protocolar, os discursos de terno e gravata ainda são a tônica nestas instituições, que, queiramos ou não, são reflexo do único traço do “catarinense”: o conservadorismo que nos coloca à margem da produção artística e cultural brasileira desde que os colonizadores do fim do século XIX e começo do XX chegaram por aqui.

Originalmente publicado na revista Subtrópicos, número 13, disponível aqui.

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