POR QUE BOLSONARO É FASCISTA?

  • POR QUE BOLSONARO É FASCISTA?
  • A palavra fascismo veio para a língua portuguesa do latim fasces, que significa “feixe”. Na maioria das línguas neolatinas o radical permaneceu. No italiano, ficou como fáscio. No Império Romano, a palavra fasces já era usada para nomear “um feixe de varas amarradas em volta de um machado”. Quem usava o instrumento era o judiciário romano, vejam só, para castigar, e muitas vezes decapitar, cidadãos que não concordavam com o Império.

  • Na Segunda Guerra, Benito Mussolini recuperou a expressão, porque a ideia de feixe, de “todos juntos”, de “temos que pensar todos da mesma forma”, atraiu boa parte da população. Porém, nem todas as pessoas comungam da mesma opinião, nem têm as mesmas práticas, não compactuam das mesmas religiões, enfim, nem concordam igualmente sobre pontos de vista político, econômico, cultural, estético, educacional, sexual etc. O Fascismo não tolera a diversidade.

  • Em alguns debates e artigos, tenho lido e ouvido deturpações sobre o significado de Fascismo. Se considerarmos a ideia de “feixe”, o uso no Império Romano e na Segunda Guerra, é fácil entender que nada tem a ver com opções econômicas, pelo menos não no raso. Mas é óbvio que, no fundo, os modos como governos lidam com as políticas públicas e a economia podem ser também fascistas. Por isso, não considero compreensíveis expressões como “ditadura de direita” ou “ditatura de esquerda”. Não existe esta diferença. Toda ditadura é fascista a priori, porque elimina o outro e o pensamento do outro. Aliás, elimina o outro para que o pensamento do outro se apague. E antes que alguém venha falar sobre Stalin, já adianto, por este conceito, se levado à risca, ele foi tão fascista quanto Hitler.

  • Quando ouvimos as falas do candidato Jair Bolsonaro é bem fácil identificar ideias e comportamentos fascistas. Ele não admite ser contrariado, e acredita, como já disse textualmente, que “no fundo ninguém gosta de homossexual”, o que é uma falácia enorme. O fascista manipula conceitos porque não consegue ter um pensamento dialético. Várias vezes o candidato fala em “proibir” livros, “proibir ideologias”, proibir propostas educacionais que não estejam de acordo com a sua, quando, por exemplo, propõe que os ideiais do educador Paulo Freire sejam banidos. A vontade de proibir denota a falta de convivência harmoniosa com o contraditório.

  • A despeito disso, de gostar ou não do método educacional de Paulo Freire, uma sociedade que não permite a diversidade de pensamento tenderá a se autodestruir. Aliás, um dos princípios da teoria evolucionista diz que a espécie humana só sobreviveu e dominou o planeta (a estas alturas eu complemento com: “que pena”) porque as etnias se misturaram.

  • Quando Bolsonaro afirmou que “fecharia o congresso na mesma hora”, que “mataria inocentes se fosse preciso”, que “a ditadura matou pouca gente”, só denota a marca da violência contra o outro. Uma assembleia é justamente uma reunião de cidadãos que representam (ou deveriam representar) os mais variados anseios de uma sociedade. Quando um candidato se propõe a “fechar” o Congresso, como os militares fizeram após o golpe de 1964, está eliminando o debate, a ideia do adversário, a voz do adversário, na falsa crença de que as opiniões dos discordantes morram também. O que é uma crença totalmente irracional. Portanto, é inútil proibir. Ninguém deixará de amar uma pessoa do mesmo sexo porque um governo não quer. Ninguém deixará de ler alguns livros porque um governo não quer. Ninguém deixará de pensar ou agir de determinado modo porque um governo não quer. Estes pensamentos todos, se forem proibidos no âmbito político, porque no social continuará existindo, ainda que escondido, talvez até se fortaleçam.

  • Todo embate político (não esquecer nunca a ideia de política como o debate sobre a polis, a cidade) necessita do adversário, aquele que versa diferente de você, mas que você pode argumentar contra, jamais destruir. O embate político, mesmo que não seja totalmente consensual, é a convivência pacífica dos contrários e do respeito ao outro. Porém, o Fascismo não tolera o adversário. O fascista só enxerga o outro como sendo inimigo, não como adversário. E para o fascismo, os inimigos devem ser calados e abatidos, até que sobre apenas uma massa amorfa, tediosamente igual, como queria o líder nazista Adolf Hitler, também fascista, se considerarmos tal significado.

  • Para o fascista, já que não existe a ideia de adversário, perder nas urnas é quase uma ofensa. O fascista não suporta perder. Todo fascista é corrupto, porque legitimar ou incentivar o uso corrente dos verbos “matar”, “eliminar”, “proibir”, “estuprar” é também corrupção, porque a palavra, que também vem do latim (corruptio), significa, entre outras acepções, "deterioração", "decomposição", "modificação", "rompimento" e suborno. Ora, quando um candidato faz apologia ao racismo, à misoginia e à violência, também está corrompendo ideais e pressupostos legais de uma sociedade que optou pela diversidade, não pelo “feixe”, não pelo “todo mundo tem que pensar igual” e agir de forma igual.

  • Negar que o candidato carregue e propague ideias fascistas é também uma atitude fascista, porque não racional. Afinal, o que faria o candidato com praticamente a metade da população que pensa o oposto dele? Como o fascista não suporta o contrário, está bem claro, seja no discurso, seja nos atos, que a tendência é eliminar. Primeiro elimina-se pensamento, depois o corpo, caso insista em pensar. O fascista não tolera a razão, por isso usa na sua retórica os arroubos apaixonados, ainda que suas palavras sejam vagas e cujas propostas sejam inviáveis sob o ponto de vista da democracia. Só para lembrar, a democracia não significa a vontade da maioria, como o próprio Bolsonaro já disse, mas sim o respeito da maioria para com as minorias. E aqui, não estou falando de questões econômicas, mas sob o ponto de vista moral, que é de onde sai a retórica do fascista. Não à toa, os primeiros atos do fascismo são sempre proibir livros, filmes, obras de arte e músicas que tenham outra ideia que não a do fascista.

  • Por isto, ainda que eu não concorde com alguns modos de agir do PT, votarei contra o fascismo que nos assombra, porque já sabemos que, com Fernando Haddad, não seremos mortos ou censurados quando precisarmos discordar ou protestar. Afinal, ele é professor e nada de seu discurso ou de suas práticas o desabona sob o ponto de vista deste conceito. A Frente Popular governou 14 anos com o Congresso aberto, participou das eleições aceitando os resultados, permitiu que a Polícia Federal investigasse, deu força ao Ministério Público, estabeleceu as audiências públicas para novas leis (talvez a instância mais democrática de exercício de poder), e sei porque participei de várias. Nem sempre o resultado foi consensual, mas todos eram ouvidos, sem exceção. De todas as que participei, os votos da maioria foram respeitados.

  • Se errou, há provas de que sim, mas sabemos também que houve participação ativa de uma parte do judiciário em conluio com o grande capital para incriminar líderes apenas com indícios, confrontando, no caso de habbeas corpus o artigo 5 da Constituição Federal. 

  • Mas viva a contribuição milionária de todos os erros, como dizia Oswald de Andrade. O que não dá é para aceitar que um candidato banque como moralista sem ter moral, notadamente expressa no seu próprio discurso. Que moral há em apregoar o assassinato? Jair Bolsonaro é intolerante, é um tiozinho tosco, porque conheço alguns assim na família, herdeiros da intolerância religiosa, e traz consigo, pelo ideal fascista que propaga, um perigo enorme para a democracia. Prefiro, neste caso, saber que se precisar ir às ruas ou escrever contra Haddad, eu poderei fazer isso.

  • Do contrário, minha profissão estará extinta, minha voz será apagada e meu corpo talvez desapareça, porque não há exercício dialético e de liberdade num regime fascista.



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