Sobre diplomas e competências
Bernard Shaw talvez tenha sido cruel ao dizer: “Desde pequeno tive que interromper minha educação para ir à escola”. Mas me parece um bom começo para debater educação, diploma e competências profissionais. Se girarmos como moscas em torno da decisão do STF, que derrubou a obrigatoriedade do diploma de curso superior para o exercício da profissão de jornalista, e não enxergamos outras possibilidades de formação, ficaremos sempre no âmbito mesquinho do corporativismo.
Duvido que alguém discorde da tese de que existem muitas formas de aprender. Acontece quer por hábito, costume, talvez até por um questão de acomodação, costuma-se aceitar que o único local para se aprender algo seja a escola. Quase todos conhecemos pessoas que têm formação regular acadêmica e que são profissionais medianos, do mesmo modo como conhecemos outras que não têm tal formação e sabem decifrar códigos, pintar, cozinhar, cantar, compreender o universo que o cerca, enfim, escrever com igual ou maior facilidade.
Se admitirmos a existência destas possibilidades, dá para deduzir que ter ou não ter um diploma para algumas atividades não é a questão primordial para o exercício de uma profissão. Do mesmo modo que ter um diploma não é ruim (pelo contrário), não tê-lo – levando em conta estas premissas – também não é. Tanto, que já temos prédios caindo, tesouras sendo esquecidos na barriga de incautos doentes, e sentenças perdidas por erros de advogados. O que esconde um debate mais profícuo sobre as competências profissionais, infelizmente, não é o reconhecimento da capacidade que o ser humano tem de aprender, mas o corporativismo daqueles que, só porque tiveram que frequentar uma escola formal, acham que têm o direito exclusivo de atuar em determinada área.
Ensinar não é atribuição exclusiva da escola, nem um diploma confere capacidade de uma competência. Tanto os profissionais, sejam eles de qualquer área, diplomados ou não, podem, juntos, pensar em soluções para o impasse. O reconhecimento, por parte das escolas, de habilidades notoriamente comprovadas poderia muito bem diplomar os que concordam com Bernard Shaw, de que a escola não é o único lugar onde podemos aprender o que quer que seja.