Neocaretismo me dá medo
Cada um pensa o que quer, isso é a democracia. É compreensível que uma pessoa não admita, por convicções religiosas, políticas, filosóficas que possa haver modos distintos de ver o mundo. Inaceitável é a imposição, e, por consequência, a proibição de determinadas atitudes, por conta destas convicções.
Nos anos de 1960, a grande Leila Diniz já havia escandalizado a sociedade apenas porque resolveu, com todo direito que tinha, de ir à praia de biquíni, mesmo estando grávida. Passados mais de 40 anos, um bando de machistinhas (sim, existem garotas machistas) agridem verbalmente uma garota que resolveu ir de minissaia para a escola. Nem todo mundo precisa gostar de ver perna. Quem não gosta, não olhe. Os garotos e garotas que agrediram a estudante da Uniban são apenas o reflexo de um neomoralismo que me dá medo. Foi este mesmo moralismo que deu guarda ao golpe militar, que criou este neopentecostalismo ultracareta e conservador, e que tenta criar regras cada vez mais sem sentido.
Um das regras é a nova lei antifumo, sancionada pelo prefeito em exercício. Cito aqui o argumento do jornalista Fábio Bianchini (que nem fuma), do seu blog, como sendo exemplar sobre esse neocaretismo que assola o país. Ele diz textualmente: “É quando, então, vou poder sair e chegar em casa sem cheiro de cigarro, certo? Errado. Bem pelo contrário. Em primeiro lugar, eu já posso fazer isso. É só escolher um lugar onde, por iniciativa dos proprietários, já não se pode fumar. Quem não quer a fedentina vai a esses. Quem não se importa frequenta os outros. Simples e democrático, né? E ‘poder’ implica em escolha, portanto, o problema é mais grave do que ‘eu já posso’.”
Essa é questão principal, o direito individual de escolha. Ninguém precisa gostar de minissaias, basta não olhar. Quem não gosta de cigarros não vá a lugares onde se pode fumar; quem não gosta de homossexuais, não precisa ser um, nem mesmo tentar impedir que eles possam se amar. Quem não gosta de viver, enfim, que fique em casa, assistindo tevê, igual a um carola do século passado, torcendo para que o mundo pare de se transformar, porque, independente da vontade dos caretas, e dos neomoralistas, ele vai mudar sempre, ainda bem.
