- Muitas vezes me sinto um desterrado dentro do Desterro. Olho em volta e não reconheço meus pares. Não pertenço mais ao modo como fui criado, dentro de uma cultura colona, católica, iletrada, na qual aos pobres como eu a vida só teria sentido em acordar as oito da manhã e fazer qualquer coisa que parecesse com arar a terra, semeá-la, orar para que dê frutos, esperar o fruto crescer e depois colher e agradecer. Não tenho crença alguma no trabalho, na propriedade, no dinheiro e nas coisas metafísicas, apenas na arte. Não há mistérios, dizia Fernando Pessoa, porque o único mistério é haver quem pense nele.
Existem dois caminhos para quem teve a experiência de ler e compreender a teoria da mais-valia de Karl Marx. A primeira, e menos adotada, é ficar indignado e decidir não se vender por meros 30 dinheiros. A segunda é promover uma infrutífera luta de classes, a mais comum. Eu fui tocado pela primeira. Portanto, não me venham com meros 30 dinheiros, porque o tempo é de ouvir estrelas, ora direis, porque arte não é mercado.
A segunda escolha exorbita qualquer um do irreal mundo do mercado, essa coisa diluída, ilusória, incerta e inventada para queimar livros e levar ao apogeu a imbecilidade humana. A saída não está na indústria cultural, cada vez mais massificada, mas na arte. A arte sem concessões, a arte modificadora, a arte não diluidora. Nada mais pobre do que a indústria da cultura, aquela em que o produtor diz o que o artista tem que fazer para agradar a um público e ganhar dinheiro. Artistas inventores, na boa e ainda válida acepção poundiana, não têm vez. Nada mais falso do que as justificativas e os objetivos para formatar projetos de leis de incentivo. Arte não é isso. Arte não tem que justificar nem objetivar. Não há pergunta mais estúpida nos formulários de inscrição para projetos do que “quais seus objetivos?”. Ao invés de perguntar o que você quer fazer?, perguntam por que você quer fazer? Ora, porque eu quero. Já não basta? Então me perguntem o “como” eu quero fazer.
Mas políticos não têm capacidade intelectual para pensar e propor uma real, necessária e fundadora revolução nessa área. São ignorantes na insistência em manter sob uma mesma pasta as áreas do esporte, do turismo e da cultura. São anos de atraso e desvios de verbas para funções que não as de revolucionar, de modificar, de impedir a violência, que tem nos levado cotidianamente à barbárie. Só com arte se estanca a violência desmedida.
A cultura perpassa tudo. O trânsito, a segurança pública, a saúde, a educação, todos os acertos e mazelas de qualquer compromisso público se resolvem com investimentos na área da cultura. Sendo assim, todas as secretarias deveriam ser de cultura. Secretaria de Saúde e Cultura, de Transportes e Cultura, de Segurança e Cultura. Imaginem um secretário da Casa Civil e da Cultura, porque o modo como atravessamos a rua, como escolhemos nossas profissões, como ficamos doente, como dirigimos violentamente, tudo isso é cultura. Mas para os governos, cultura é pagar um cantor popular, de preferência o mais diluidor e o que menos faz as pessoas pensarem, para que a máxima do pão e circo romano se concretize. Por isso, o ideal seria mesmo não a separação da cultura do esporte e do turismo, mas o acréscimo da cultura em todas as outras pastas, e a criação de uma secretaria exclusiva para as artes. Ideia típica de desterrados, vão dizer por aí. Além do mais... A ponte
Há duas semanas, o Diário Catarinense reportou a explosão voluntária de uma ponte pênsil nos Estados Unidos. Era parecida com a Hercílio Luz, mas bem menor, quase um pontilhão. Acompanhei os comentários dos leitores e fiquei impressionado com o fato de que a maioria queria fazer o mesmo com a ponte que liga o Estreito à Ilha.
Pela lógica destes leitores, não haveria também nenhum problema em colocarmos abaixo o palácio Cruz e Sousa, a Catedral Metropolitana e o restinho de patrimônio histórico que ainda resta na Ilha.
Este, aliás, foi o grande projeto do ex-governador e do atual prefeito: deixar as construtoras destruírem os últimos patrimônios históricos e culturais da cidade. Nunca dois governos fizeram tanto mal pela arte catarinense. O primeiro, por manter a ideia vinda do fascismo italiano (incluso o de pintar os prédios públicos de vermelho e verde) de que a cultura deve ser feita pelo governo, enquanto todos sabem que deve ser feita por artistas e pelo povo. O segundo, por omissão geral, não cumprindo desde o começo com a promessa de campanha de criar uma secretaria para a cultura, criar um fundo e lançar editais públicos.
Agora, no apagar das luzes de oito anos de um mandato é que anuncia um edital minguado e um fundo quase sem fundos. Desse modo, para a triunfal vitória da burrice, o ideal mesmo seria explodir a Ponte Hercílio Luz. Dos restos da pólvora sairá a ridícula e falsa ideia de progresso, e a demonstração real e explícita do quanto somos ingratos com a história e com a arte, e provar uma certa macaquice com o ideal medroso e notadamente violento dos norte-americanos.
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10 de março de 2012
ARTE CONTRA A VIOLÊNCIA
17 de dezembro de 2011
POR QUE SOMOS SÃO ESTÚPIDOS?
Para quem achou que seria um velho no ano 2000, no alto de seus 38 anos, chegar em 2012 beirando os 50 dá até uma certa nostalgia, aquela mesma que os mais jovens não suportam ver nos mais velhos. Não sou nostálgico, nem penso que o mundo é melhor ou pior do que antes. Por mais que estejamos numa espécie de caos urbano, de violência generalizada, de sermos guiados por um poder beirando à ignorância, eleitos por conta de nossa própria ignorância, ainda há inúmeras conquistas sociais, e dispomos de uma certa liberdade de ao menos podermos dizer o que pensamos sobre tudo isso.
Em outros aspectos, porém, vejo a ascensão de uma elite sem nenhum preparo político, intelectual ou moral para exercer o poder, mas o exerce. E essa mistura de ignorância política – a qual leva a omissão social, com arrogância típica de classe média que encontra a verdade na revista Veja e no Jornal Nacional, mas nunca leu um único livro – é o que está matando o pouco que ainda temos de civilidade. A prova mais contundente é o quase linchamento, por parte de moradores da comunidade da Barra da Lagoa, de um grupo de supostos traficantes locais.
Mas o pior ainda não é o grupo se achar no direito de bater em quer que seja, é uma parte mais ignorante ainda da sociedade que se acha no direito de apoiar atitude típica de tempos de barbárie. Digo ignorante, porque por trás do discursinho vingativo social, ou do “estamos fazendo apenas aquilo que a polícia não faz”, está nas entrelinhas a ideia de que qualquer ato, discurso, desejo ou diferença do seu modo de vida, pode ou deve ser resolvido na agressão ou no linchamento.
Não precisamos ir muito longe. A Ku Klux Klan, liderada por brancos racistas norte-americanos, que durou até na metade do século passado, ou seja, não faz nem cem anos, usava esse mesmo discurso, de “limpeza social” para linchar negros, e, do mesmo modo como os moradores da Barra da Lagoa, também usavam capuzes.
Há outro discurso de uma parte da sociedade que “quase” aceita essa violência como desculpa pela omissão e pela estupidez do governo. Afinal, pagamos impostos em troca também de segurança, e, ao invés de lincharmos politicamente a omissão e o despreparo dos governantes que elegemos por estupidez e desinformação, preferimos matar nossos vizinhos. É um enorme paradoxo social.
No último domingo, fui levar um amigo na rodoviária, local, dia e horário sempre cheio de gente, indo e vindo, encontrando-se e se desencontrando. Ao chegar, um homem, típico de classe média, bem vestido, num carro também típico de classe média, sacou um revólver e ameaçou atirar em um rapaz, negro, que estava perto. Com muito medo, saí dali. O homem ainda me olhou com aquela cara típica de macho burro e armado, e é bem provável que tenha um emprego bacana, família, ou o que qualquer um diria: “gente de bem, de família”. O rapaz saiu de perto, não sem antes falar qualquer coisa a qual meu medo não me deixou ouvir.
Lembrei depois do plebiscito no qual votei contra o direito desse tipo de gente usar armas. Hoje, fui rever as estatísticas sobre crimes de arma de fogo. Todas confirmam o que eu havia escrito: quem mais mata não são os supostos bandidos, mas pessoas bem vestidas e consideradas como sendo “do bem”, e por motivos fúteis. Isso tudo é apenas um sinal de que algumas coisas estão bem piores. Apesar de ainda existir gente capaz de se indignar contra a estupidez cada vez mais pungente da sociedade brasileira, e, aqui em na Santa e Brega Catarina, contra a ascensão de uma elite, como dizia Darcy Ribeiro: “infecunda”, e que vai pouco a pouco, por causa da falta de informação da classe média (a única que seria capaz de insurgir), tomando todos os poderes, desde as câmaras de vereadores, passando pela Assembleia Legislativa, pelo judiciário e – onde ela mais aparece – pelo poder executivo. Termina mais um ano, e continuo sem entender o motivo pelo qual ainda somos tão estúpidos.
A TARIFA MAIS CARA DO MUNDO
Graças à internet, faz tempo que trabalho em casa, o melhor escritório do mundo. Mas nesse ano, tive que me locomover do Centro ao Estreito, todas as tardes. A primeira ideia foi usar o transporte coletivo, mais barato, ecologicamente correto, tranquilo e seguro. Ou, pelo menos, é o que deveria ser. Depois de uma semana, decidi fazer uns cálculos para garantir minha decisão, que compartilho agora com o leitor, para que perceba o quanto a política de transporte urbano está equivocadíssima.
Meu carro velho faz 10 quilômetros com um litro de gasolina. Do centro até o Estreito, ida e volta, percorro 6,4 quilômetros. Se a gasolina custa, em média, R$ 2,70, eu gasto por dia, indo e vindo, menos de um litro, ou seja, mais ou menos R$ 1,40. Indo de ônibus, eu estaria gastando R$ 5,40. Obviamente, porque não sou trouxa de jogar o pouco dinheiro que tenho pela janela do ônibus, voltei a trancar as ruas, poluir a cidade e correr risco no meu velho automóvel.
Mas ainda tem uma questão. Se um coletivo, que transporta, em algumas linhas, milhares de pessoas por dia, e é uma concessão pública, há uma grave omissão dos poderes públicos em permitir uma tarifa tão absurdamente cara, para um serviço público tão essencial para a saúde urbana e mental da população desse ilha de Nossa Senhora dos Aterros, cada vez mais aterrada, poluída, insegura e ignorante.
Pelo melhor do ser humano e contra o pior aqui relatado, que 2012 seja bem menos estúpido do que 2011.
23 de outubro de 2011
O “real” da política
A entrevista concedida pelo ex-secretário da Fazenda Ubiratan Rezende – publicada na semana passada aqui no Diário – foi a mais lúcida que já li sobre política neste Estado reacionário, elitizado e atrasado que é Santa Catarina. Eu já havia gostado de um artigo de Rezende, publicado no mês passado, também aqui no DC, quando ele ainda era secretário. E já havia sido lúcido e realista (bem mais do que o rei) quando confirmou o que qualquer estudante de Sociologia já sabe e todo cidadão precisa (ainda que não compreenda). A questão, portanto, não é a obviedade do que se sabe, mas o “personagem” que a repete, porque se existe alguma coisa ainda rara por aqui, depois da passagem das cinzas do vulcão chileno, é um político falar o que pensa. E, mais ainda, falar o que é preciso que seja dito, ainda que seja o óbvio.
Agora, como ex-secretário, possivelmente sentiu-se muito mais à vontade para demonstrar o quanto os políticos tradicionais são incapazes de escapar da lógica fisiologista, viciada e maldosamente ignorante que toma conta do Estado. Rezende diz o que escrevo aqui nesse canto do jornal nos últimos 10 anos. Todo mundo sabe que o Estado é rico, que o problema não é a falta de grana, mas o mau gerenciamento dessa grana. E não raro, ela alimenta (vide superaposentadorias, salários absurdos à custa de desigualdades sociais) justamente os que a mal gerenciam.
Tão logo assumiu, Rezende compreendeu que as secretarias regionais eram um escoadouro de dinheiro para cabos eleitorais e auxílio fácil para reeleições com dinheiro público. Tanto que o ex-governador só se reelegeu, a despeito da desastrada gestão, por conta da existência bizarra das tais secretarias. Em tempos de comunicação instantânea, é óbvio que seria bem menos oneroso investir em um sistema de comunicação eficiente entre Estado e prefeituras para que os graves problemas (e, afinal, sabemos todos quais são: educação de última categoria, cultura sem investimento algum, saúde doente, segurança insegura, e nenhuma justiça aos que mais precisam dela) pudessem ser sanados com mais razoabilidade e inteligência. Na entrevista, Rezende não escondeu que logo nos primeiros dias o governador Raimundo Colombo foi bem claro e “realista”. O jogo político é outro. Colombo não foi eleito por conta própria, mas por causa de uma aliança, a mais esperta de toda a história política de Santa Catarina, que é justamente a que criou enormes cabides de emprego para as centenas de cabos eleitorais que garantiram a sua própria eleição. Até um cego, com perdão do trocadilho infame, percebe isso. Menos aqueles a quem Rezende, com sua polidez acadêmica, chama de “os poderes”. Segundo ele, 18% da receita do Estado vai para os “poderes”, e sobra apenas 4% para investimento. Para que ter governo, então?
Como podem os juízes, deputados e o próprio Executivo (não são eles os “poderes?”) dormirem com tanto disparate? Por que não param tudo e revisam esse vício político? Sim, sabemos todos, porque eles não querem deixar de ganhar. Enquanto isso, a população que paga aos poderes para que os poderes resolvam seu problemas básicos, tem que se virar, contratando outro Estado: o privado, para educar, dar segurança, curar e prevenir suas doenças.
Porém, Rezende ataca também os empresários. Muitos, segundo ele, são “comissários” do Estado, porque ganham subsídios e incentivos, porém, não sabem se virar sozinhos. O grande problema está, então, no eleitor, que, mal-educado, mal-informado, e que ainda troca voto por um quilo de arroz, colabora com esse vício e essa ignorância cruel que é o sistema político brasileiro, e, em particular, o catarinense.
Apenas o eleitor pode mudar esse vício. Mas, é claro, se tiver vontade para isso. Por que se acreditar que é justo pagar duas vezes (uma para o Estado, outra para a iniciativa privada) para ter saúde, segurança, educação, cultura e infraestrutura, então deixe tudo como está, como fez o governador Raimundo Colombo, que chamou a pessoa certa, mas não tem capacidade política para mantê-la e transformar essa brutal realidade política. E vai tocar assim até o fim do seu mandato. Depois virá outro, e mais outro, e assim, a cada mandato, mais o Estado gasta com o que não precisa e deve para aquilo que existe. Então, para que quer ser governador, se não consegue governar? Se é incapaz de denunciar os vícios, as pessoas, a máquina, as alianças que o impedem? Está mais do que na hora de mudar tudo isso. O problema é que pessoas inteligentes não têm a menor vocação e paciência para dialogar com os ignorantes que ocupam os poderes.
Desabafo do Guga
Outra entrevista do DC que também deu o que falar foi a do tenista Gustavo Kuerten. Do mesmo modo que o ex-secretário da Fazenda, Guga disse o óbvio. E só repercutiu por causa do personagem. Que a Ilha está sendo vilipendiada, mal administrada e destruída pelo mercado imobiliário, todos sabem. O que poucos sabem, e talvez Guga possa elucidar, é o por qual motivo a construtora da qual ele foi sócio (ou ainda é?) tem sido uma das que mais derruba casas e prédios antigos do que ainda resta de patrimônio arquitetônico, impondo à paisagem urbana um estilo “caixotão” de arquitetura, sem nenhuma criatividade?
Plano Diretor
Depois da desastrosa tentativa do prefeito Dário Berger de apresentar um projeto de Plano Diretor, passando por cima do Estatuto das Cidades, chamando técnicos estrangeiros e deixando de lado todas as discussões feitas pelas comunidades, está sendo remontado o Núcleo Gestor do Plano Diretor Participativo. O Núcleo, com representantes dos vários distritos da cidade, eleitos em audiência pública, se reunirá quinzenalmente. Infelizmente, a UFSC, sem nenhum motivo técnico (supomos, portanto, que seja político) tirou o arquiteto Lino Peres, um dos mais atuantes nos últimos quatro anos, indicando nomes que não acompanharam o processo.Pelo tombamento da Ilha dos Aterros
E que seja apresentado urgentemente o novo Plano Diretor, antes que Nossa Senhora dos Aterros se transforme, definitivamente, numa terra de ninguém, como sugeriu o Guga. A produção em série de licenças ambientais despropositadas (e a Operação Moeda Verde? Que fim deu?) e alvarás duvidosos de construção em locais notadamente perigosos ao meio ambiente é assustadora. De minha parte, que costumo ir às raízes, como dizia o velho Marx, quando o chamavam de radical, proporia o tombamento imediato de toda a Ilha dos Aterros. Ninguém mais pode destruir nem construir.
Diário Catarinense, 23 de outubro de 2011
30 de julho de 2011
Fim da política, ascensão do idiota
O contrato social, proposto por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), apesar de anacrônico porque baseado nos hábitos e costumes que faziam sentido naquela estrutura social, é uma das reflexões mais importantes da filosofia, principalmente aquela que propõe mediar as relações entre os cidadãos e o Estado. Para Rousseau, a base de toda educação política passava pela família, a qual ele considerava a mais antiga de todas as sociedades. Mas essa célula, tão respeitada como sendo fundamental até o fim do século passado, já não é mais a mesma. Até o fim do século 19, a família ainda era patriarcal, apesar do evidente matriarcalismo interino, ou seja, da porta para fora mandava o pai, mas quem administrava a casa era a mãe. Parte destas mudanças profundas tem a ver com as transformações das relações amorosas. De essencialmente heterossexual, ao menos na aparência, hoje já é admissível famílias de casais homossexuais, inclusive com adoção de crianças. Por mais que ainda exista uma resistência de setores conservadores da sociedade, não há mais como impedir esse avanço. Mas não apenas isso, já é enorme o percentual de pessoas que não quer constituir família, vivendo sozinhas ou em companhia de amigos.
No entanto, o modo de fazer política e a maneira como é mediada a relação entre Estado e seus cidadãos permanecem como na época de Rousseau, como se o Estado ainda fosse o pai, e os cidadãos ,seus filhos que devem obediência incondicional. Porém, na prática, não há mais como essa convivência partir deste princípio, ainda que a maioria pense assim. Aliás, mais do que pensar, a maioria não se dá conta de que é manipulada ao extremo. Esse “não se dar conta”, se buscarmos a etimologia da palavra “idiota”, do grego, nada mais é do que o sinônimo de alienado, que tanto usávamos no início da década de 1980. O idiota, para os gregos, era aquele que não queria participar da vida política. Hoje, sem orientação alguma para a política, nem da família nem do próprio Estado (que tem a obrigação constitucional de “ensinar”) cada vez mais vivemos numa sociedade de perfeitos idiotas, porque a maioria dos cidadãos se ausenta deliberadamente da política, esvaziando seu sentido, invertendo seu valor essencial, tornando reles uma atividade tão fundamental e transformadora da sociedade.
Tudo bem que é um direito de cada cidadão se ausentar da política, alienar-se, não querer se envolver a não ser na hora do voto, e ainda assim votar sem nenhuma consciência política. Mas essa idiotização, no sentido mais literal da palavra, é a maior contribuição para a existência de uma política ruim, corrupta, sem ética e sem princípios ideológicos. A conta é fácil. Quanto mais pessoas optarem por ser idiotas, mais políticos ruins ocuparão espaço.
Para tanto, basta observar o esvaziamento ideológico dos partidos. Não há mais esquerda ou direita. Há apenas uma vontade de poder de “políticos” que veem nesse vácuo ideológico um modo de usar o Estado apenas para enriquecimento pessoal. Mas o pior mesmo é que a classe média brasileira, a grande idiota da história, continua pagando impostos para os políticos, ignorando que este tributo deveria ser pago para que o Estado investisse em cultura, educação, saúde, segurança pública e infraestrutura. Mas não é o que acontece. A idiotização da classe média só reforça cada vez mais a corrupção e torna obscura a compreensão dos objetivos da existência de um contrato social, como queria Jean-Jacques Rousseau.
Além do mais...
Numa entrevista cedida à revista Piauí, na última edição, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, sem nenhum constrangimento, disse que o novo partido que está fundando não discriminará ninguém, e aceitará cidadãos com qualquer perfil ideológico, sinalizando a pretensão de apenas manter-se no poder. É tão descaracterizada de sentido político aristotélico a ideia do novo partido que foram descobertas listas falsas de assinaturas necessárias para a efetivação da sigla. Sinal óbvio, a contar com os que já pretendem filiar-se ao novo ninho de raposas, do que podemos esperar. Mais uma vez, se o cidadão brasileiro não fosse idiota, no sentido grego, a criação de um partido desses sequer seria cogitada.
Viva a Vaia!
Falando em político, para finalizar, não há nada mais constrangedor, sem sentido e fora de propósito do que o modo arcaico como estes políticos falam em cerimônias públicas. Seria bem mais inteligente se eles, ao invés de perder tempo em citar todos seus colegas, de forma cansativa e fastidiosa, dissessem apenas: “Prezados cidadãos”. Algumas vezes, a nominata leva mais tempo do que aquilo que supostamente deveria ser dito. Essa velha maneira de fazer política também tem a ver com a idiotização do cidadão médio, porque é permissivo com ela. Sempre me pergunto por que ninguém mais vaia? Como dizia o grande poeta Augusto de Campos: Viva a Vaia!
Diário Catarinense, 30 de julho de 2011
4 de julho de 2011
DOS DIREITOS DE IR E VIR
Na Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, onde a população é devota de “Santo Automóvel”, já é quase desumana a dificuldade de mobilidade urbana. E todos os especialistas são unânimes em apontar como causa principal dessa insanidade dois fatores: essa “cultura do automóvel” por parte de uma classe média que acha feio andar de ônibus e a falta de sensibilidade do poder público (ou seria falta de vontade política?) em tratar o tema com inteligência.
Em média, os veículos particulares ocupam 58% do espaço das ruas para levar apenas 20% dos cidadãos. Já os ônibus transportam mais de 68% das pessoas, ocupando apenas 24% do espaço. Se todos sabem que se não houver investimento em transporte público a situação ficará cada vez pior, por que então vereadores, prefeito, construtores e uma parcela enorme da classe média ainda acham que é duplicando e fazendo túneis e viadutos que haverá fluxo tranquilo? Se não abandonarmos a ideia de que apenas o automóvel pode nos levar de um lugar a outro, deixaremos de ser uma “metrópole” para ser uma “necrópole”, porque estaremos nos matando aos poucos e de forma violenta.
Uma das tarifas de táxis mais caras que já conheci é a da Ilha dos Aterros. Conversei outro dia com um taxista. Disse a ele que o valor quase surreal do táxi ilhéu devia-se à quantidade irrisória deles nas ruas. O motorista respondeu que para eles é bom. Novamente a lógica de uma minoria sobrepujando o interesse coletivo. Depois, descobriu-se que quase toda a frota, que é mínima, se comparada a cidades como Curitiba, Nova York ou São Paulo, pertencia, com anuência do poder público, a um único sujeito.
É emblemático o número de adesivos que circulam na Ilha, principalmente no Sul, anunciando que “se não duplicar vai parar”. Trata-se de uma lógica pequeno-burguesa. Se desse certo, São Paulo não teria metade dos problemas que tem. O que não fez ainda São Paulo parar é o metrô.
Faz muito tempo que nas cidades onde a formação da classe média é melhor a maioria usa muito mais o transporte público. O sensato não é duplicar ou fazer mais viadutos, mas prover a cidade de transporte público de qualidade, rápido, eficiente e, de preferência, gratuito. Somente deste modo todos poderão exercer com plenitude seu direito de ir e vir.
O grande nó
Nos debates sobre mobilidade urbana, soluções como ciclovias, integração e uso de transporte marítimo são sempre lembradas. Porém, pouca gente toca no ponto mais fundamental, principalmente na capital catarinense:o direito de ir e vir de milhares de pessoas está estancado nas mãos de poucos empresários. O grande nó, dizem os empresários, é que, se aumentar a oferta de ônibus e horários (e o táxi usa a mesma ideia), os veículos levarão poucas pessoas e a empresa não terá lucro.Se é assim, resta uma pergunta que deve ser respondida pelo poder público e por parte da população que acredita nessa falácia: se a empresa não pode ter prejuízo, a população (acidentes, lentidão, poluição) pode? Quanto mais houver ônibus, táxis, micro-ônibus, trens, metrôs ou barcos disponíveis, mais pessoas deixarão seus automóveis em casa. Se tem pouca gente esperando ônibus nos pontos é porque a fama do serviço (que basta usar para comprovar) é muito ruim. Quem não pode ter prejuízo são os usuários (milhares) e não apenas alguns empresários.
Além do mais, o transporte público, tanto ônibus quanto táxis, é uma concessão pública. Ou seja, é o Estado que regula e permite. Pergunto: por que o Estado, ou seja, nós, contribuintes, temos de sustentar o lucro dos empresários. Por que o Estado não encampa o serviço? Se a sociedade quer e precisa de transporte público, nada mais sensato do que municipalizar o serviço. Mas para isso é preciso mudar a cultura geral da classe média, educá-la politicamente para que não caia no discurso de que o empresário “pode” lucrar, mesmo às custas do desconforto da maioria.
9 de outubro de 2010
Tiririca do Brasil
O cidadão Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como Palhaço Tiririca, foi eleito como o deputado federal mais votado do País, com mais de um milhão de votos. No meio da semana, porém, o tribunal eleitoral de São Paulo questionou sua capacidade de ler e escrever. Quase todos os “letrados”, principalmente com manifestações nas redes sociais, acharam um absurdo a eleição do palhaço. Sim, é absurdo, mas quem menos culpa tem nesse processo é o próprio deputado eleito.
Primeiro, porque foi a campanha mais honesta que eu já vi. Se fizermos uma pesquisa rápida, ainda que empírica, entre todos os candidatos, incluindo aí alguns eleitos, perguntando aos mesmos se sabem o que faz um deputado federal, será enorme o número de respostas afirmando desconhecer a tarefa. Tiririca, pelo menos, teve a honestidade de dizer que não sabia. Quem votou nele, portanto, sabia muito bem disso. E os que votaram nos candidatos que não sabem, mas não falaram nada? Honesto, também, porque disse em alto e bom tom que, se eleito, ajudaria muita gente, a começar por ele mesmo e sua família. Do mesmo jeito, quantos não pensam dessa forma, porém não falam?
Seus detratores, infelizmente, são incapazes de criticar os partidos políticos, os magistrados e a elite que, por mais letrada que seja, não consegue se mobilizar para sequer propor uma reforma política que iniba esse tipo de candidatura, ou que acuse seus problemas (no caso o analfabetismo do candidato) antes das eleições, porque, se configurar mesmo o crime, pelo menos um milhão de pessoas terá, literalmente, perdido seus votos.
E os analfabetos políticos, muitos deles eleitos ou reeleitos, não teriam também que passar por um teste sobre seus conhecimentos políticos? E aposto que muitos seriam reprovados. Por fim, não podemos esquecer que os Estados Unidos elegeram George Bush, a Itália elegeu Silvio Berlusconi, e olhem bem alguns eleitos em Santa Catarina. Entre estes, mil vezes o palhaço original.
Publicado originalmente no Diário Catarinense, 9 de outubro de 2010
26 de junho de 2010
Alianças de araque
A ideia de partido político é muito mais interessante do que o quadro que temos hoje, principalmente no Brasil. O propósito – pelo menos como se iniciou na Grécia e em Roma, e que depois das revoluções Industrial e Francesa se firmou como instituição – era agrupar pessoas com um mesmo ideal político, ou para seguir um determinado líder. No Brasil, muitos líderes ainda se acham donos dos partidos.
Nos Estados Unidos, único país onde o presidencialismo faz sentido, por causa do projeto de nação ser profundamente aceito pela maioria, existe apenas duas agremiações com um número de filiados suficiente para decidir uma eleição. Ainda assim, qualquer cidadão pode ser candidato a cargo público eletivo. No Brasil são 27 partidos registrados, e ainda mais o mesmo número em processo de legalização. Mas ao contrário dos Estados Unidos, a lei não permite candidaturas independentes.
Para se ter uma ideia da discrepância da democracia brasileira, apenas pouco mais de 2% da população é filiada a algum destes partidos. E é um engano enorme acreditar que tenham uma bandeira a defender a mais do que a manutenção do poder. E para tanto, os supostamente de esquerda aceitam como vice um supostamente de direita sem a menor cerimônia.
A lei eleitoral é tão esdrúxula, que no Estado de São Paulo, por exemplo, numa das eleições para deputado federal, um candidato foi eleito por apenas 26 votos, enquanto outros, que obtiveram mais de 50 mil votos, não o foram. Sinal de que vagueamos numa enorme e perigosa ignorância política, que se transforma cotidianamente em uma democracia fragilíssima.
Na Santa e Brega Catarina, os partidos demonstram todos os dias que não fogem à regra, porque buscam alianças não importa com quem, desde que se mantenham no poder ou o alcancem. Programas, ideias, projetos, debates sobre a real política pública, disso ninguém fala. Nem os partidos, nem, infelizmente, os eleitores.
Diário Catarinense, 26 de junho de 2010.
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