17 de junho de 2007

PARAR PARA PENSAR

Diferente do poeta Paulo Leminski, que só sabia pensar andando, eu queria ter o poder de parar de pensar. Aliás, o mesmo poeta disse que ninguém escreve bem, mas sim pensa bem. A única vez que paro de pensar é quando durmo. Pelo menos, esse pensamento determinado, consciente, retilíneo, porque sonhar – diferente de todas as crenças no inconsciente freudiano (ao qual dele penso apenas como graça) – não é parar de pensar, mas apenas pensar sem querer pensar. A vida é sonho?, pensou um certo Calderón de la Barca.
Já Renée Descartes quando escreveu (ou pensou?): "penso, logo existo", esqueceu daquelas coisas que existem e não pensam, como caixas de madeira, bolas de boliche, panos de limpar óculos ou cachimbos de espuma do mar. Colocamos onde, na catalogação mental a que somos submetidos, essa espécie de taxionomia obrigatória que a todo instante nos pede para comparar uma coisa com outra? Pensar, mais do que existir, é comparar?
Para o filósofo sinocoreano Tsung Li Ming, se houvesse pecado que devesse ser severamente punido pelos deuses (se existisse deus, ele gostava de salientar), haveria um único: o ato de comparar. Mas como viver sem colocar as coisas uma ao lado da outra – mesmo que apenas no pensamento (pensar é viver?) – e escolher uma delas? Se houvesse no mundo da música apenas essas duplas de cantores bregas, como Salomão e Salaminho, Bronco e Mascarpone, por exemplo, é bem provável (ainda no mundo das idéias) que eu gostaria deles. Mas depois da invenção do jazz, a comparação é inevitável. Por isso é que gosto se discute. Como gostar do que não se conhece? Como não gostar de algo sobre o qual você só conhece aquilo? Pensar é perguntar?
Engraçada é a expressão "parar pra pensar", oposta à lógica de que em algum momento alguém consegue "parar de pensar". Mas talvez seja possível mesmo, basta olhar os representantes políticos eleitos, no executivo e no legislativo. Não tenho dúvida de que quem os elegeu não parou para pensar no que estava fazendo, ou talvez tenha mesmo parado de pensar e por isso, sem ter com o que comparar, escolheu esses caras que, sinceramente, não pensam no que fazem, ou fazem sem pensar?
Pensar é também sinônimo de pesar, confirmando minha analogia quase impensada ao verbo comparar. Para comparar é preciso pesar. E quando algo pesa apenas para um lado – o que muita gente chama de "imparcialidade" – tende a ficar penso, assim como a Torre de Pisa, que como a caixa de de madeira, e desmentindo Descartes, existe sem pensar que é pensa.
Filosofar talvez seja o exercício de pensar sobre o pensar. Seja parando para fazê-lo, seja caminhando, como o poeta, o que faz alguém pensar que para pensar é preciso parar? Alguns filósofos atestam que não se pode pensar sobre o pensar, porque isso significa dizer que quando alguém está pensando pensa em alguma coisa de fora do pensamento e nunca sobre o próprio pensar.
Pensar é experiência tão fascinante quanto viver? Simultaneamente, talvez (é importante essa dúvida), as duas coisas, pensar e viver, não caibam numa mesma cabeça. Alguns escolhem viver, outros pensar. E parando para viver um pouco, e não para pensar (e se pensar é perguntar), pergunto: por que é dizem que pensando morreu um burro?

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