15 de setembro de 2007

E esse modelo de representatividade?

É preciso ir às raízes antes de analisarmos um fato político para não corremos o risco de ficar na superfície. Mas a sociedade ainda corre léguas das raízes, e por isso vive nessa mediocridade intelectual e política que faz doer os ossos. A superfície é mais fácil de comentar e criticar, porque basta dizer que tal fato político é um atentado contra a moral, etc. No caso político recente, mais do que imaginar ser um absurdo a não-cassação do senador Renan Calheiros, é preciso antes fazer algumas perguntas.

A primeira é questionar se a população acredita ser esse modelo de representatividade o ideal. Se não crê como sendo, porque permite que ele funcione dessa forma? Além do mais, o senador (e não custa lembrar um pouco de história), foi ministro do governo Collor, o mesmo que foi expulso da presidência por uma série de irregularidades. Mas não dá pra esquecer que, antes de falar mal do resultado político da abstenção do presidente do Senado, é preciso reconhecer que Renan foi eleito pelo povo alagoano que sabia muito bem de sua origem (se não é possível fazer um julgamento jurídico) política, que é a mesma que sustentou a ditadura militar, e a mesma do ex-presidente Fernando Collor, hoje senador eleito da República.

Há toda uma geração de eleitores que não tem conhecimento algum da história política do país. É correto que se vote sem consciência? É, todos sabemos e queremos que sim. Porém, a democracia sem educação é tão perniciosa quanto a ditadura. Não podemos reclamar de senadores que absolvem um par envolvido em falcatrua se quem os elegeu, tanto o réu quanto os que os absolveram, fomos nós. Por isso, o problema primeiro é debatermos se este é ainda o modelo ideal de representatividade.

Indo mais às raízes, apenas para fazer uma analogia local, a reeleição do governador Luiz Henrique da Silveira é igualmente emblemática. Depois de ter construído o maior cabide de empregos do mundo, que são as secretarias regionais (pois se gasta mais com comissionados mal preparados do que com investimentos públicos necessários), depois de mexer para muito pior no sistema de investimento à cultura sem jamais ter conversado com aqueles que criam (certamente por medo de ouvir o que não quer), depois de ter se metido em escândalos gravíssimos como o caso Vera Fischer (que o Ministério Público ainda investiga) e o escândalo da borracharia de estrada que montava um esquemão para investir no Carnaval carioca, depois do escândalo do balé Bolshoi, não só judicial, mas um crime de "lesa-estética", ainda assim o governador foi reeleito.

Portanto, os nobres senadores que absolveram um senador notadamente envolvido com ilicitudes na sua vida privada não são nem um pouco diferentes dos eleitores que reelegeram o governador. E ambos, agora, têm o direito de ir até o fim de seus mandatos, porque o que tem que ser transformada é a mentalidade coletiva e a educação do povo brasileiro e de sua classe média que navega sem saber quem, como, ou por quê são governadas.

Do mesmo modo, toda a sociedade brasileira crê como sendo absurda a imunidade política, mas não é muito estranho que ela ainda exista? O julgamento de Renan Calheiros, assim como a reeleição de Luiz Henrique, foi político. O que temos que mudar é essa tacanha mentalidade política do brasileiro, ainda preconceituosa, deseducada, sem conhecimento histórico, e pautada pela mediocridade. Se não mudarmos isso, não tem muito sentido reclamar.

Um comentário:

Anônimo disse...

Concordo com você. Faz tempo que comento sobre a caduquice do modelo político emperrado e sem saída. Como é que se muda isso? Dependemos da educação do povo, para que ele possa se conscientizar, mas essa mesma educação depende das mirradas verbas dos governos a quem não interessa educar ninguém. Povo mantido na ignorância e no medo (os noticiários são quase que apenas páginas policiais e propaganda da violência) não pensa, só suspira e se deprime. Isso me lembra uma frase da época da ditadura militar: "a saída? onde fica a saída?"
Margarida Baird