14 de outubro de 2007

Salve o Cine Marrocos

Talvez não signifique muito ao leitor a notícia da venda de mais um cinema de calçada. Afinal, foram tantas as salas fechadas nos últimos anos, a maioria ocupada agora por igrejas cujo lema é "templo é dinheiro", que o anúncio da venda do Cine Marrocos, em Lages, parece já fazer parte da destruição gradual da "cultura da rua". Depois do homo sapiens, conforme avisa o poeta Vinícius Alves, apareceu o homo xópings. Assim, caminhamos para o ar-condicionado e o falso ascetismo dos templos de dinheiro, que anunciam, sim, salas e salas de cinema (ainda que minúsculas), mas que se limitam a exibir cada vez mais do mesmo.

Do mesmo modo como devo parte de minha formação ao Cine Clube Nossa Senhora do Desterro e à abnegação de Gilberto Gerlach em trazer mostras de diretores que jamais seriam exibidos nos cinemas comerciais, devo outra parte, não só intelectual mas também social, ao Cine Marrocos. Intelectual, porque compreendi, a partir daquelas poltronas modernistas (como todas as linhas de sua arquitetura, da fachada à sala de estar) a diferença entre o cinema de entretenimento e o cinema de autor. Optei pelo último como espectador, e hoje não creio no mero entretenimento, porque o mais tolo dos filmes sempre serve a uma ideologia, mesmo que disfarçado de emoções e risos baratos. Mas isso é conversa para outro sábado. Social, porque ir ao Marrocos era muito mais do que ver um filme. O mote mesmo era ver gente. E nesse propósito, o Marrocos lotava todos os domingos à noite, independentemente dos filmes que exibia, mas quando prestávamos atenção aos filmes, sempre ganhávamos algo mais.

Nas poltronas do Marrocos vi o Último Tango em Paris, conheci o humor inglês do Monthy Phyton e sua hilária versão da vida de um certo Brian. Foi após a sessão de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, que tive a primeira epifania, quando o amigo Bottini comentou o diálogo de um dos soldados da barca, extraída da emblemática novela de Joseph Conrad, Coração das Trevas, quando, chapado daquele cigarro que passarinho não fuma, diz que não dormiria nunca mais, pois fosse na vigília ou fosse no sono, a imagem do horror da guerra nunca mais sairia de sua cabeça.

Confesso um pieguismo ao falar do fim de uma sala de cinema depois do Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Mas deveríamos compreender nesse processo até onde o espaço privado deixa de sê-lo para se transformar em espaço público, e o quanto é fundamental a preservação do que é patrimônio público, por mais que pareça privado. É compreensível que o dono do Marrocos tenha prejuízo pela ausência de público, e por isso precise vendê-lo. Há um choque cultural enorme entre o direito de vender um patrimônio que é seu, e o direito público que é a memória daquele espaço. O patrimônio pode ser do senhor Mário Santos, mas a fachada pertence aos olhos do público, porque sempre que alguém passar por ali terá a sensação de que viveu experiências, interessantes ou não, emocionantes ou não. Do mesmo modo, a memória de todos os casais que trocaram beijos naquele escurinho pertence a todos. Nesses casos, só o poder público pode intervir, do mesmo modo como fez quando da quase venda de outro emblemático cinema lageano, o Marajoara. Hoje, graças a intervenção do poder público, o Marajoara é um teatro municipal. Por que não fazer o mesmo com o Marrocos?

Mas meus conterrâneos, por desconhecerem que um imóvel privado é de alguma forma público, e por levarem a sério a idéia de que devemos abandonar tudo o que é velho (problema, aliás universal) largaram o Marrocos ao azar do discurso das almas, e passaram a freqüentar pequenos cinemas nos centros de compras ou alugam filmes nas locadoras para não sair mais de casa. Detecto no ar uma conspiração capital para a destruição da memória humana, para que mais uma vez se possa errar tudo de novo e construir o já construído. Mas é do erro repetido de onde mais se extrai dinheiro fácil.

2 comentários:

vinícius alves disse...

fabito,

obrigado pela alusão (ilusão?) ao meu nome. como sempre "matas a cobra e mostras o pau" ou seria, "matas o pau e mostras a cobra?" ai que mêda!

beijo do vini

Anônimo disse...

Fábio, eu vivi 2 anos na Pensão Natal, ao lado do Cine Marrocos...

Ali assisti a tantos filmes que nem sei quantos...

Vinícius, mate logo o pau e a cobra, que os dois não servem pra nada...

Karl