1 de março de 2008

O paradoxo Cuba e outros paradoxos

No caminho para o aeroporto de Havana, em Cuba, há um cartaz que diz: "Esta noite milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana". Até mesmo o mais fundamentalista texano de olhos claros sabe que não pode contra-argumentar esse dado, porque na terra do Tio Sam e das oportunidades não é possível afirmar a mesma coisa, pois centenas de crianças dormem nas ruas. Em cuba há pobreza, sim, mas não miséria. Ao invés de tentar compreender o motivo pelo qual não há crianças dormindo na rua em Cuba, os defensores do capitalismo selvagem preferem apenas levantar outros assuntos que depõem contra a Ilha no Caribe, falácia natural de quem não tem argumento. Mesmo assim, essa fuga do tema não deixa de mostrar o quanto Cuba é mesmo um enorme paradoxo.

O que mais pesa sobre as quase cinco décadas de ditadura em Cuba é exatamente o fato de ser uma ditadura. Não há alternativa ou abertura para um regime político diferente e, até onde se sabe, muitos opositores foram mortos e ainda existem muitos presos políticos, o que é deplorável. O paradoxo da ditadura de cubana está justamente na contradição entre bem estar social de um lado, fornecido pelo Estado (educação, cultura e saúde gratuitos) e a falta de liberdade de expressão crítica de outro.

Por outro lado, toda a liberdade democrática norte-americana (apesar de uma mesma família, os Bush, ocuparem o poder por 16 anos e a eleição não ser direta), não consegue dar conta da exclusão sistemática cada vez maior de cidadãos ao bem estar social, o que configura também um enorme paradoxo. Mas nos Estados Unidos é mais fácil explicá-lo, talvez. Toda a riqueza produzida lá, somadas as vindas da invasão de outros países, tanto as legais - da venda de Coca-Cola e McDonalds - (entendam como metáfora, por favor), quanto as ilegais - A invasão ao Iraque - (já não posso dizer o mesmo), não dá conta de construir um sistema justo e que proporcione igualdade a todos. De certa forma, se transforma numa ditadura, porque democracia não é só voto, é , principalmente, direitos iguais a todos. Se um único sujeito morre de fome, enquanto outro esbanja-se em limusines, sou obrigado a desconfiar dessa democracia. Sem contar que os Estados Unidos ainda impõem uma sanção econômica considerada ilegal por várias resoluções da ONU.

De forma singela, porque isto não é um ensaio, apenas o início de uma prosa política, há uma pergunta básica que deve ser feita diante desses paradoxos. Seria possível aliar democracia e bem estar social num país? Se sim, o que impede que isso aconteça, seja em Cuba, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil? Se essa pergunta fosse feita desde os primeiros anos a uma criança numa escola pública e de qualidade, e fosse dada a liberdade de debatê-la até a exaustão, talvez houvesse algum resultado no futuro.

Mas quando um estado permite a existência de hospitais e escolas privadas, ele perde completamente sua razão de existir. Não existe democracia num país que proíbe (ou que não permita, vá lá) que um único de seus cidadãos não possa escolher em que escola estudar ou em que hospital se tratar. Mais à raiz ainda: existe democracia num país onde escolas e hospitais têm diferenças no atendimento? As mazelas dos dois regimes há tempo estão postas na história. Que fragilidade nos impede de saná-las?

Claro que não basta, e e condenável o processo político notadamente ditatorial em Cuba. Mas é bom saber que das 200 milhões de crianças que dormirão nas ruas nessa noite de sábado, nenhuma delas estará em Cuba.

Um comentário:

Carlos disse...

Sempre que vejo essa frase das criancinhas de Cuba, me ocorre uma pergunta: se tudo é censurado por lá, quem é que foi de cidade em cidade pra conferir se isso é verdade mesmo ou não passa de propaganda do regime?

(só agora descobri teu blog, por isso o post atrasado)

Carlos