7 de junho de 2008

Sobre o espanto

Descobrir um planeta pelo telescópio, inventar a lâmpada, o impacto da visão de uma terra desconhecida, fazer o fogo, a justeza da imagem de Jean-Luc Godard, voar pela primeira vez, o fundo do mar, tremer diante da primeira nudez, a visão de um hipopótamo fora dágua, o jorro de um gêiser, a magnitude de uma baleia, o fim da leitura de um verso que desconcerta, a prosa de Guimarães Rosa, a música de Sebastian Bach e Astor Piazzolla, o trem dos irmãos Lumiére e, é claro, a descoberta de que não há mistério além da palavra mistério. É quase sem fim essa espécie de taxionomia do que pode nos espantar, mas pouco temos nos espantado.

Ouço conversas nas ruas, nos bares, e elas estão desprovidas de espanto. Que frieza, que tanto é esse de informação que nos impele, e o tão pouco conhecimento que nos sobra, que nos deixaram assim? Ainda me espanto, sim, quando vejo um avião no céu, ou com a facilidade que temos de nos comunicar com alguém que mora em Hong Kong, porém não me espanto com a dificuldade que tenho em conversar com a cabeleira que mora dois pisos abaixo do meu.

Estima-se que nos últimos 50 anos, tivemos mais desenvolvimento inventivo do que em toda a história da humanidade. Segundo o filósofo Mario Sergio Cortella, todas estas invenções, em cada uma delas, precisamos nos acostumar com suas novidades intrínsecas. Acabamos, segundo ele, a nos submeter ao ritmo que elas impõem, e essa overdose da novidade induz a uma insensibilização dos sentidos e dos sentimentos.

Talvez eu seja um espantado por natureza. Ainda me espanto como tem tanta gente que não se irrita assistindo programas tão ruins na televisão, ou com a passividade diante da destruição diária da cidade pela especulação imobiliária, ou com a quantidade de equívocos cometida diariamente pelos magistrados, pelo governador, pelo prefeito, pelos vereadores. E me pergunto, espantado, como assim? Já é público e notório que as cidades não precisam mais de vereadores, mas alguém tem a brilhante idéia de inchar mais os legislativos municipais. Não é de espantar que tantas evidências existam sobre inconstitucionalidades (só a Lei de Incentivo à Cultura tem um caminhão de exemplos) praticadas pelo chefes do executivo, com anuência de uma maioria na câmara, e ninguém faz nada? É mesmo espantoso.

Mas, pelo jeito, tem tanta gente lucrando com a falta de espanto, que não me espantaria se algum capitalista inventasse uma essência qualquer para livrar do ser humano essa capacidade, talvez a que mais tenha levado a humanidade a ser o que é, pelo bem ou pelo mal, porque não há espanto nem pelo que possa ser considerado sublime nem pelo que possa ser considerado hediondo. Se a cultura nasce mesmo do espanto, qual cultura podemos esperar daquela que nasce sem o espanto? É um paradoxo, mas tudo caminha para a cultura comezinha, ridícula, egoísta e burra daqueles que nos governam e que nós engolimos com farofa e ainda pagamos com impostos.


Diário Catarinense, 7 de junho de 2008

3 comentários:

Anônimo disse...

Fábio crocodilo,
apreciei cada linha desse tua crônica seca feito um móbile de Calder. Textos assim renovam a sede de estar sempre ali na piscina dos Hoopers, lugar de onde tu jamais saíste.

Tudo está uma grande besteira, sem espanto, sem assombro: é o Holocausto, só que agora não há Hitler e não temos bodes expiatórios ou temos este bode sem cérebro que atende pela sigla LHS.

O consolo é que sabemos como findam estes LHS's de la vie. Numa cadeira de rodas, pedindo com irritação que alcancem o mijador. Este Luís Henrique da Silveira: um dia um hipopótamo fora d'água vai currá-lo sem dó nem pietá.

Fernando José Karl

compulsão diária disse...

Gostei do texto e do espanto que tb é meu ;)

Anônimo disse...

Ôrra meu! Fábio seu texto tá muito bom e
o comentário do Sr.Karl
tá d + !!!
Não fica bem para uma senhora grisalha
com mais de 55 aninhos
estar dando risadas aqui diante
de tais coments.
Dalí seria capaz de pintar uma
tela do curta que Fernando criou
aqui. A cena do hipopótamo
é tipo assim...phodona!!!
Já o cara berrando pelo
"papagaio" está mais para enredo
rodrigueano, inclusive
pelo componente freudiano
(metendo no papagaio), que
se instala sempre quando entra Nelson.
Fê! você foi cruel pô!
Ah! seu texto lá em
Nautikon destrinchando
Saussure tá belezão!
À vocês dois, jovens senhores,
poetas, exegetas,escritores:
abração e acim da
caçadora de flores
P.S.:agora (meio)revisado eheheh