1 de novembro de 2008

Prezado novo velho prefeito

Não gosto do modo como o senhor administrou a cidade até agora. Eu sei que o azar é meu, porque não deveria ter usado meu tempo para pensar em cultura, patrimônio público e memória, mas sim em progresso e obras. Já o senhor captou muito bem o gosto da maioria pelo asfalto, ao qual o senhor atribui o princípio do progresso. Somos o Estado com o segundo pior saneamento básico do país, mas, ah, que orgulho, nossas ruas são pretíssimas, do mais puro piche. Apesar de não gostar de seus métodos, ou de seu modo anti-republicano de fazer política, ainda sou habitante desta Ilha dos Aterros, a qual o senhor acredita que deve ser asfaltada de Sul a Norte. Mas como cidadão, gostaria que o senhor prestasse atenção nos resultados reais da sua eleição.

O progresso, senhor prefeito, como disse o poeta Charles Baudelaire, não está nas construções ou nas tecnologias, principalmente se elas não estiverem a serviço da vida. O progresso, disse o bardo moderno, se dará quando não houver mais traços do que se chama pecado original. Sei que o senhor custará a compreender tal metáfora, ou sequer prestará atenção nela. Afinal, estará ocupado em cimentar a Ilha dos Aterros.

Quanto aos números, eles dizem que apenas uma minoria votou no senhor. Sim, pois se a cidade tem pouco mais de 400 mil habitantes, sendo aproximados 300 mil eleitores, e se o senhor não fez nem 100 mil votos, significa que apenas um quarto da população quer asfalto e se dispôs ou pode votar, seja pela idade, seja por abstenção, seja por terem votado em branco, seja por terem anulado, seja, por fim, por terem votado no candidato adversário. Não seria prudente se perguntar, apesar de eleito, o que querem os outros três quartos? Será que não querem tranqüilidade, cultura, educação, saúde, praias sem tanto turista. Será que não preferem aquela velha rua de barro? Será que pensam como o poeta francês?

Quando aparecerem as enchentes, a falta de água ou de energia, os índices altos de analfabetismo, os ratos nas ruas e essa violência epidêmica que nos assalta, por causa da sua prioridade por obras, o senhor terá coragem de aceitar que essa plataforma, que um quarto da população aceita como sendo progresso, foi responsável por tudo isso? Eu sei que o senhor tem muito mais poder para minimizar estas críticas do que eu de disseminá-las. Por isso, boa sorte a todos nós nos próximos quatro anos.

Diário Catarinense, um de novembro de 2008.

3 comentários:

La Vanu disse...

Sr. Prefeito, tomo a liberdade de tomar as palavras de Bruggemann como minhas. Assino. A gente não quer só asfalto, a gente quer diversão, balé, organização sem corrupção. Será que dá? Fácil sabemos que não é, mas se fosse fácil qualquer um o faria. Né?
Boa sorte!

Anônimo disse...

Assino embaixo.
asfalto, asflato e mais asfalto... o que mais pode um prefeito fazer por sua cidade?
Há muito mais... principalmente nas áreas da cultura e educação!!

Victor da Rosa disse...

O poeta moderno preferido do prefeito é o Rimbaud.