6 de dezembro de 2008

O banco redondo

Pouca gente deve saber onde fica a Praça Etelvina da Luz, mas quase todos já ouviram falar do famoso Banco Redondo. Quando cheguei por aqui, no início dos anos de 1980, não era a Ponte Hercílio Luz (visível à distância) que me davam como referência. Cada vez que eu perguntava onde era tal lugar, a primeira frase era: "Não tem o Banco Redondo?". Levei um tempo a encontrá-lo, porque imaginava se tratar de uma instituição financeira cuja arquitetura fosse efetivamente arredondada.

Mas não, o Banco Redondo é apenas um banco redondo mesmo, num minúsculo e triangular espaço público, a tal Praça Etelvina da Luz, com um flamboyant no meio e uma mesa de xadrez ao lado, cercado pelas barulhentas Mauro Ramos e Altamiro Guimarães. Seu tamanho reduzido, porém, não lhe tira a importância. Palco de protestos, namoro, debates, tiroteios, teses, o Banco Redondo, com seus 15 metros quadrados, resistiu a todas as pressões imobiliárias. Dizem até que para obter o "Mané card" é imprescindível saber de sua localização.

Casas lindas e históricas foram derrubadas em seu entorno, como a da família de Haro ou a ex-sede do jornal A Notícia, na Altamiro Guimarães, de onde eu enviava, via telex ainda, as colunas semanais para Joinville. Acabaram com o Campo da Liga e, no seu lugar, construíram um enorme centro de compras. Mas o Banco Redondo continua lá, resistindo, cercado por um sobrado no qual eu sempre quis morar (e temo pelo seu destino, por causa dessa espécie de predileção quase sádica pela destruição de patrimônios históricos), por um boteco onde os vizinhos fazem seus habituais churrascos de final de semana e por uma loja que vende produtos eróticos.

Para uma ilha que se pretende turística, ter o Banco Redondo como referência de patrimônio cultural é de uma comoção sem precedentes. É uma ode ao mínimo, e que só resiste porque é pequeno demais para a construção de um prédio. Eu e o Jorginho, que nasceu e se criou na Ilha, e que me cantou essa letra, combinamos de visitá-lo qualquer dia destes. Sentaremos no seu batido concreto, carunchado de gás carbônico, e, na pouca sombra do velho flamboyant, admiraremos a destruição gradativa e lenta da Ilha de Nossa Senhora dos Aterros.

4 comentários:

Lhota disse...

Essa leitura me pareceu uma encomenda perdida da subtrópicos, caderno cultural recém lançado, mas acho que é apenas o que Floripa desperta a quem deseja escrevê-la (ou a ela). Este sentimento cinza misturado com a vontade de ainda poder pincelar alguma cor nos dias de hoje e um completo, mas que não se quer consciente, tudo está acabando.

CARMEN FOSSARI disse...

FÁBIO
ESTE TEU BANCO REDONDO, FORMATA
EM DELICADEZA, O QUE O CONCRETO TEM ENTERRADO VIVO DE NOSSO PATRIMONIO ARQUITETONICO,
UMA CIRCULAR IDÉIA SEDIMENTADA DE QUE A ILHA CAPITAL HÁ DE SER MEGALOPOLIS, E CLARO RENDER MUITOS
METAIS AOS DITOS " EMPREENDEDORES DO TURISMO" ATÉ HOJE APENAS MAFIOSOS TORPES ESCALONADOS NAS PAREDES DO PODER. BJS PELO TEXTO
CARMEN

Anônimo disse...

Primeiro eles levam embora o campo, depois derrubam casarios, mudam os "modos de fazer" e por fim calam as histórias e o saber que o povo tem pra contar. No lugar, constroem shoppings, emergem prédios, substituem pequenos caminhos por grandes estradas e o que se ouve das bocas são histórias trágicas sobre como a natureza resolveu se vingar.
Ainda bem que o banco redondo continua sendo um pedaço de concreto no alto da Mauro Ramos.

Priscila Lopes disse...

Meu também cheio dessas "memórias". O Banco Redondo fica próximo a onde trabalho. Ainda há um botequinho ali e os freqüentadores (tremas ainda)costumam montar uma churrasqueirinha lá na pequena praça do Banco. Quanto a todo resto e ao comentário da Lhota... penso que é do SER humano a característica quase principal de SER saudosista. Infância. Memória. Temas recorrentes na literatura.