6 de junho de 2009

As coisas sempre estão longe

As coisas nunca estão por perto quando a gente mais precisa delas. Quero o cortador de unhas, e ele está não sei onde. Preciso da toalha de banho, mas todas estão no cesto de roupas sujas. E aquele disco que deu uma vontade maluca de ouvir, só pra lembrar de alguém que também está longe: no tempo, no espaço? Não encontro. O fone de ouvido, aquela fotografia, a cópia do contrato, os livros. Estes dariam um capítulo inteiro se eu tivesse paciência para escrever um livro que se chamasse “As coisas sempre estão longe”. Procuro, entre as obras de Oswald de Andrade, meu Serafim Ponte Grande. Encontro todos os outros, mas adivinha qual não está lá? Dá certo, às vezes, fingir que estou procurando outro livro. Aí ele aparece.

As pessoas também sempre estão longe. Ando desperdiçando beleza longe das pessoas. E nem gosto de telefone. Se gostasse, poderia ao menos reduzir virtualmente a distância com eles. Mas o telefone também sempre está longe. Além do mais, eles chegaram na minha vida quando eu já era um cara de 18 anos. Não tinha essa de telefonar para avisar o tio que o avô queria que ele fosse lá jogar canastra com ele. A gente atravessava dois bairros, uma avenida de mão dupla no meio, passava na casa dos amigos pra combinar de jogar uma pelada mais tarde, porque ninguém tinha telefone, e dava pessoalmente o recado. As coisas não estavam muito perto desde aquela época, mas a gente não tinha medo de ir ao encontro delas. Se eu gostasse de telefones talvez todas as outras coisas estivessem mais perto. Mas ainda tenho a mania da adolescência de ir sem telefonar antes. Na maioria das vezes, dou com a cara na porta. Mas eu gosto do caminho. Talvez a melhor coisa no fato de as coisas estarem sempre longe é que sempre tem caminho para que possamos ir atrás delas, e, no meio, encontrar outras coisas, outras pessoas.

Já as pessoas, nem sabem o que querem, nem sempre compreendem o que se passa com elas e com os outros. As coisas sempre estão longe, mas elas não escolhem esta condição. Na verdade, nem sei mesmo se as coisas existem. Talvez, a grande ilusão do mundo seja este auto-engano de acreditar nas coisas, nas pessoas, ou nos deuses. Eu desisti de compreender as coisas, porque acabo de descobrir o aparelho de barbear dentro da geladeira. O que ele foi fazer lá, sozinho, com esse frio todo? Se as coisas sempre estão longe, ou as encontramos fora de seu lugar habitual, que dirá as pessoas.

7 comentários:

Guto Lima disse...

Fala amigo Fábio! Costumo dizer: "quanto mais perto mais longe". Impressiona a distância que só aumenta, com o passar dos anos, entre as pessoas. Arriscaria dizer que é inversamente proporcional aos avanços tecnológicos. Mas vamos em frente, buscando nos aproximar de quem queremos que esteja próximo! Abraços e parabéns pelo texto! Guto Lima

La Vanu disse...

De perto ninguém é normal mesmo!
Quanto mais perto, mais longe: de vc mesmo, do que vc imaginava, do que se desejava...C´est la vie...
Até me deu saudades esse teu texto, saudades de mim lá no meu interior bem "barriga verde"...
Bj

PS: Deixo aqui o link para seus leitores darem uma visitadinha:

www.25perguntas.blogspot.com

bj

Anônimo disse...

Bom Fábio, eu li, porque escreveste: "Eu desisti de compreender as coisas, porque acabo de descobrir o aparelho de barbear dentro da geladeira. O que ele foi fazer lá, sozinho, com esse frio todo?"

Três hipóteses:
1. O barbeador lá estava porque foi utilizado pela tainha barbuda que, agora, é tainha escanhoada.

2. O suspeito de o barbeador estar na geladeira é o pingüim emcima da geladeira. Ele, que não tem barba nem nunca terá, quis sacanear, apenas isto.

3. Foste convidado ao Bar do Toldo e, ao procurar mais gelo para o copo de uísque, deixaste lá o barbeador (estavas fazendo a barba), porque ir ao Bar do toldo sem a pele tinindo, afasta as moças.

Karl

Anônimo disse...

concordo. as coisas estão sempre longe. os sonhos também. as pessoas também. sempre longe. eu sempre me sinto longe de mim, daquele que fui. e tão perto daquele que não quero ser. gostaria de conhecer o caminho, que tu anuncias, para chegar perto, daquele que fui, e afastar, daquele que não quero ser.

Beto Tavares.

Beto Tavares disse...

concordo. as coisas estão sempre longe. os sonhos também. as pessoas também. sempre longe. eu sempre me sinto longe de mim, daquele que fui. e tão perto daquele que não quero ser. gostaria de conhecer o caminho, que tu anuncias, para chegar perto, daquele que fui, e afastar, daquele que não quero ser.

Beto Tavares.

Jami disse...

huahauuahua! barbeador na geladeira, eu ri :D
Mas tudo nãao passa de verdade, não costumo encontrar as coisas quando quero!

Nida Ollem disse...

O texto me fez ficar contarolando Rita Lee: "longe daqui, aqui mesmo".