4 de julho de 2009

Se eu fosse você

Se eu fosse você, não ficava aí esperando não sei o quê. Se eu fosse você, encheria um lençol com a roupinha básica, amarrava num cabo de vassoura e sairia feliz de casa. Iria para a rua, que é onde as coisas acontecem, onde a vida pulsa para além dessa caverna platônica que é tua casa. Principalmente na hora do jornal das oito, e nem se fala durante a novela das nove. A vida ali nem de ilusão é feita.

Se eu fosse você, não iria mais à escola. Pelo menos não a essa escola esquizofrênica, que me mandava ficar quieto quando mais pergunta eu tinha. Como assim, quieto? Meu corpo, de seis anos de idade, não é feito para isso. Meu corpo quer pular, gritar, rir de todas as escatologias possíveis. Meu corpo não está pronto para ser atrofiado. Meu corpo não quer se transformar num adulto chato, histérico e castrador, incapaz de se contentar com a coisa mais fundamental e gratuita que tem na vida, a luz do sol.

Se eu fosse você, acenderia um charuto na tua última nota de um real, só pra dizer que se libertou de vez dessa cultura que forma debiloides cotidianamente, que transforma pessoas em seres alienados de si mesmos, que dirá dos outros, porque não se contentam em apenas ser. Elas acham que só são quando têm. O verbo que se conjuga com o ser é o estar, não o ter, como você pensou até agora. Se liga, cai na irreal, olha quanta gente com lumbago, enxaqueca, com depressão. Olha quanta gente no Serasa, no CPC, com cartão estourado no banco só porque quer ter o que não pode.

Se eu fosse você, desligaria todas as luzes, o computador, a geladeira e institucionalizaria o apagão, pelo menos uma vez por semana, para poder enxergar as estrelas, tiraria toda a roupa, andaria nu entre os prédios, abraçaria seu vizinho para poder sentir, mesmo que numa tentativa que mal chegaria aos pés da vida pré-histórica, o que há de mais atávico nessa vida.

Se eu fosse você, olharia agora por cima deste jornal e daria uma enorme gargalhada, porque é o que nos resta, e os imbecis já tomaram todos os poderes, e não há mais lugar pra pessoas como você, com tão fina ironia, com tamanha inteligência pra ficar aí querendo ser o que não é, e com tanta vontade de mudar esse estranho mundo em que vives. Se eu fosse você, começaria a crer que talvez ainda haja tempo, e que nem tudo está perdido.

4 comentários:

manu d`eça. disse...

Outra coincidência. Além da emoção com o homem das flores, a institucionalização do apagão. Durante alguns meses entre 2008 e 2009 consegui instituir o apagão das terças-feiras na família... isso nos obrigava a ir procurar o que fazer juntos, nos forçava a conviver ou criar algo diferente para fazer até as 22h. Não durou muito tempo e a razão queo motivou foi a mesmo que me levou a virar vegetariana, essa minha chatice. Mas quem sabe eu não repense o apagão. E se a família não acompanhar eu o faço sozinha! Sozinha não, acompanhada das estrelas.

Raquel Stüpp disse...

gostei tanto!
desse e mais ainda do senhor das flores.

Glória Celeste disse...

Fábio, muito BOM!
A constante luta e vigília azem a gente esquecer que apesar de muito já perdido, talvez ainda haja tempo de mudar: não o mundo mas apenas o que me cerca. Mudar o mundo é o sonho de um jovem disposto... Abraços

Maikon K disse...

em joinvas falta um colunista de verdade. por acaso, vc não quer se mudar pra cá ?
hehehe