7 de agosto de 2010

Colaboração do leitor Antonio Paulo D'Aquino Noronha,
que foi ver como seria o Joaquim, na mistura de Buda com Nietzsche.

JOAQUIM

Outro dia um amigo disse que existem dois tipos de pessoas, basicamente. Sim, o basicamente foi apenas para minimizar o absolutismo da tese. Um, segundo ele, correspondente a 90% da população (e fico pensando no quanto é fácil “percentuar” as questões no chutômetro) é aquele que tem fobia aos diferentes, logo, ele mesmo não pode ser diferente. Tipo camaleão. Se tivesse que viver entre esquimós, aprenderia rapidinho a ser um deles. Se fosse teletransportado pra lua, seria uma rocha pro resto da vida. Aliás, disse o amigo, a maioria das pessoas é como rocha. Não é capaz de mudar de opinião mesmo diante de um argumento irrefutável. Para estes, os seres-rochas, disse o amigo, todas as discussões acabam facilmente com duas frases. A primeira: “Ah, Deus quis assim”. A segunda: “Isso aí é só retórica”. “Tudo é só retórica, tudo é só linguagem. Somos seres de linguagem. O assassino não usa revólver, mas a linguagem. Mata quando não tem mais o que dizer, quando cansa do verbo. O medo se instaura quando não há mais linguagem”.

Quando acabou de falar, o amigo (tá bom, vamos chamá-lo de Joaquim) deu a mão e disse tchau. Mas ficou um instante ainda, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas que já havia dito tudo. Dizer tudo é o mesmo que dizer nada, ele disse ainda, como se tivesse lido meu pensamento.

Joaquim é o último livre-pensador que conheço. Vaga por aí pensando e dizendo, nessa ordem, coisas que ninguém mais ousa, de tão atrofiados que estão pela falta de transcendência, como diz outro amigo. Nem falo de uma transcendência metafísica, apesar do termo não me dar outra opção. Joaquim fará muita falta quando encher a paciência de tanta palavra que não diz nada, de tanta imagem mal editada.

O Joaquim custa a se despedir. Ele tem tanto pra dizer, por isso, volta várias vezes, me dá a mão depois de uma frase que ele diz com orgulho. Mas ontem ele saiu mudo. Está acontecendo alguma coisa com o Joaquim. Talvez esteja transcendendo de verdade, virando um misto de Nietzsche com Buda, bem a cara do Joaquim.

3 comentários:

Flávia de Mattos Motta disse...

e eu tenho um amigo que nem é meu amigo. o acaso (ou a "a circuntância") fez com que um dia nos falássemos... ou nem... ou quase. mas ficamos amigos. a gente se encontra de passagem numa rede, numa ponte ou calçada, em que um diz tudo bem? e o outro diz oi tudo bem? E ninguém responde nada. basta a pergunta. Então a vida circula até um novo cruzar em que ele me diz e aí? e eu respondo e então? Nem precisamos parar. Aquele beijinho do lado? superamos. Aperto de mão: bastou o primeiro. E assim a gente vai conversando. cocordando e discordando. profundamente. amizade profunda e minimalista... cada vez mais íntimos...

Anônimo disse...

Você pode até inventar uma transcendência que não seja metafísica, mas acho que o Joaquim acredita, como eu, que faz falta a fé em Deus. Com ela, as pessoas perderam a noção de que moral é algo que vai muito além das figurações hipócritas e exige compromisso com o que é justo. Assim, há de fato muitos sendo rocha, vitimados por eles mesmos, pela própria indiferença e conformismo, talvez 90, 99 ou 99,9%, não sei...

Anônimo disse...

joaquim não é aquele cara que escreve a sorte do dia no orkut? hahahahahahahahhahaha avacalhei. feliz dia dos pais!