6 de novembro de 2010

A beleza do relativismo

Apesar de aparentemente antagônicas, ciência e religião tratam da mesma ilusão, ou objeto – para alguns – que é a verdade. A diferença está no modo de tratamento que cada um dispensa. Para a ciência, sem querer generalizar – porque tem muito estudo metafísico autoproclamado científico (e aí começa a se desmontar o mito da verdade) –, quando não há evidências ou provas de algum fato não se deve emitir juízo. Para a religião, ao contrário, a verdade pode ser baseada em hipóteses, lendas, mitos e, claro, na propagação histórica de uma crença.

Antes da invenção do consumismo, era comum a humanidade se perguntar o que era, de onde viera, para onde iria. Hoje, com tanta coisa para consumir, ver, sentir, tocar, pouca gente se questiona sobre a própria existência. Os que insistem em saber recorrem à ciência ou à religião. O cientista que se preza, pelo menos até este sábado, deverá responder: “não sei, ainda não descobrimos”. O religioso, seja de qualquer igreja, dirá que fomos desenhados por algum ente superior, mesmo que não exista evidências, provas ou qualquer outro fato que pessoa embasar sua tese.

Pensei nisso, apesar de ser apenas um início de uma conversa da qual sempre gosto, por conta da leitura do livro Breves notas, do escritor angolano Gonçalo Tavares, recém publicado no Brasil pela editora da UFSC, com apresentação de Júlia Studart. Breves notas é a união de três livros: Breves notas sobre o medo, Breves notas sobre as ligações e Breves notas sobre ciência. Nas notas sobre ciência, Gonçalo resume o que penso quando trata da verdade. Diz ele: “No absoluto nada é verdade. Cada coisa é verdade de acordo com uma certa metodologia. (...) Todas as hipóteses podem ser verdades pois podemos encontrar uma metodologia que as faça verdadeiras”. Do contrário também, ele diz mais adiante. E é isso que os que acreditam em “uma” verdade não conseguem enxergar muitas vezes: a beleza do relativismo.

Diário Catarinense, 6 de novembro de 2010

2 comentários:

Anônimo disse...

Meus pais eram, ela católica, e ele materialista dialético.Combinaram que não se meteriam nessa questão religiosa da minha formação.Fui estudar num colégio burguês, mas laico.Havia aulas de religião (católica) pra quem quisesse.Aos 8 eu fiz primeira (e última) comunhão para acompanhar a turma dos outros garotos.Foi traumatizante.No confessionário fiquei preplexo quando respondi ao padre que tinha,sim, pecado "acompanhado" na noite anterior, ao me lembrar que "roubei" um pedaço de goiabada na geladeira depois de escovar os dentes, com a minha irmã.Perplexo com a quantidade de aves-marias que ele me mandou rezar e com o discurso cheio de ameaças.Para um padre, pecar acompanhado era sexo explícito.Eu,naquela época, não imaginava como poderia ser suja a cabeça de um cura.
Quando eu tinha 12 anos, perguntei ao meu pai - por que vc não acredita em deus ? E ele, entre uma tranquila baforada de hollywood sem filtro e outra, respondeu - Porque não preciso.
Mas quem criou tudo; o universo ? insiti . e ele, definitivo : o universo é infinito.Não tem tempo : nem antes, nem depois.O homem, unico aninal que tem consciência da morte, inventou o tempo.Todas as civilizações humanas teem elementos que marcam o tempo.Meses; luas; contas no pescoço; etc.Para saber o que lhes resta de vida.Mas o tempo não existe.Logo, essa pergunta " de one surgiu" ou "quem criou", perde o sentido.Sabendo que o universo é infinito, pedi para ser dispensado das aulas de religião.
Abraços,
Bigo.
- Escrevo aqui pq não consigo entender como faze-lo no blog.É mais complicado do que a metafísica ! Mas ,se quiser, publica por mim.

Fábio Brüggemann disse...

o querido anônimo acima é o amigo luiz carlos lacerda, o grande bigo.